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Oferece a você a oportunidade de leitura e reflexão sobre textos repletos de exemplos, experiências e lições que irão transformar a sua vida.

O FANTASMA NO ESPELHO (Entre o Charme da Barba Preto e Branco e o Espectro de Karl Marx)

Por José Carlos Castro Sanches

Site: www.falasanches.com

“Envelhecer é o único meio de viver muito tempo.” (Sainte-Beuve)

Se pensarmos na longevidade como bênção, ela será uma verdadeira dádiva; do contrário, pode muito bem se transformar em uma maldição de contornos trágicos.

Essa reflexão filosófica — ou quase isso — surgiu quando enviei a foto que ilustra esta crônica a um grande amigo. Junto à imagem, mandei em tom provocativo a legenda: “Cabra bonito!”. A resposta veio no ato, sem o menor filtro ou compaixão: “Rapaz, assim tu o dizes… Não sou de achar homem bonito, mas essa barba te envelheceu muito (aparência de Karl Marx).”

Diante do diagnóstico impiedoso, fiquei a pensar sobre o que mais me incomodaria: parecer envelhecido ou ostentar a estampa do pai do comunismo. Refletindo bem, prefiro o envelhecimento natural com todos os seus louros. Afinal, envelhecer com dignidade é a recompensa dos sobreviventes: acumulam-se memórias, sabedoria, histórias impagáveis e uma deliciosa liberdade de dizer o que se pensa sem a urgência da juventude. Apesar das dores articulares e dos percalços inevitáveis da terceira idade — em que o corpo reclama até de um vento encanado —, envelhecer ainda é incomparavelmente melhor do que a única alternativa disponível.

Quanto à comparação com Karl Marx, essa sim me causou um profundo arrepio. A aparência do filósofo alemão não me agrada em nada. Fico longe de admirar um sujeito histórico marcado por relatos de negligência com a própria família, atitudes oportunistas, a lendária aversão ao trabalho braçal e, acima de tudo, por uma ideologia comunista cujos frutos a história já cansou de julgar. Marx definitivamente não é o meu tipo de inspiração, tampouco merece minha admiração como exemplo de vida ou de conduta.

Por outro lado, essa tese de que a barba traz apenas a aparência da velhice é um equívoco do meu caro amigo. As garotas da ilha, por exemplo, têm demonstrado uma percepção muito mais refinada, afirmando exatamente o oposto! Embora minha amada esposa concorde em parte com a crítica quando a barba se encontra meio desalinhada ou rebelde, a verdade é que um rosto emoldurado por fios respeitáveis ostenta um charme viril, aristocrático e inconfundível. A barba confere uma aura de mistério, sabedoria e elegância madura que a pele lisa dos garotos jamais conseguirá emular. É o verdadeiro terno sob medida do rosto masculino — e, convenhamos, dá um trabalho danado manter esse estilo de cavalheiro!

No fim das contas, meu caro amigo talvez tenha confundido o peso dos anos com a imponência do estilo. Que me venham as canas e a barba fartamente cultivada, pois envelhecer não é virar fantasma do passado, mas lapidar o próprio caráter com a ousadia de quem já viveu o suficiente para não se importar com os aplausos (ou vaias) da plateia.

“A velhice é o coroamento da vida, o nosso último ato.” (Cícero)

Rosário, 27 de outubro de 2026.

Direitos reservados ao autor: José Carlos Castro Sanches.

Químico, professor, consultor, comunicador, escritor, cronista, contista, trovador, poeta e produtor cultural.

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