Por José Carlos Castro Sanches
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“Coragem é a avaliação de que algo é mais importante do que o medo.” (Franklin D. Roosevelt)
Na escuridão fria de um mar revolto, o desespero costuma turvar os olhos e confundir o julgamento. A história de Maria, a garotinha lançada às águas geladas do Atlântico pelo próprio pai em 1917, ressoa como uma poderosa alegoria sobre a travessia das nações e as decisões dolorosas que o destino nos impõe. Durante décadas, Maria interpretou o gesto de Antonio como abandono e dor; afinal, como compreender o ato brutal de ser empurrada ao abismo por quem deveria proteger? Apenas com o passar do tempo e o amadurecimento da razão, a verdade emergiu: aquele não era um ato de rejeição, mas a única tentativa desesperada de salvar o seu futuro e lançá-la em direção à vida.
“Um dos maiores testes de liderança e gestão de crise é a capacidade de reconhecer o caminho da sobrevivência antes que o problema se torne uma tragédia irreversível.” (Arnold H. Glasow)
Ao olharmos para o panorama político do Brasil e as suas históricas disputas presidenciais, é impossível não enxergar a analogia dessa embarcação à deriva. Em momentos cruciais da nossa história, a sociedade se vê diante de um oceano incerto e polarizado, muitas vezes personificado em escolhas duras e representadas, no imaginário popular e no folclore político nacional, por símbolos e números marcantes como o 13 (o Galo, que anuncia com o seu canto o amanhecer de um novo dia na busca por justiça social e acolhimento) e o 22 (o Cordeiro, símbolo da mansidão, da esperança renovada e da busca por ordem e preservação de valores).
Muitas vezes, a paixão do debate e a tempestade do momento fazem com que o eleitor sinta que está sendo empurrado para o escuro, imerso no medo ou na desconfiança das intenções alheias. O olhar imediato e traumatizado prefere enxergar no gesto do oposto a ruína ou o abandono. No entanto, uma reflexão sensata e coerente nos convida a erguer a cabeça acima das ondas turvas do presente.
“A coragem não é a ausência de medo, mas o triunfo sobre ele. O valente não é quem não sente medo, mas quem conquista esse medo.”(Nelson Mandela)
A verdadeira maturidade de um povo consiste em compreender que, para além do choque das ideologias e das siglas numeradas, a essência do ato democratizante precisa ser o desejo genuíno de preservar o futuro coletivo. Cada voto, cada escolha e cada travessia travada nas urnas não deve ser motivada pelo ressentimento ou pela ilusão do abandono, mas pelo compromisso visceral com o amanhã de nossas crianças e de nossa pátria.
O futuro não se constrói na escuridão do medo, nem na fixação estéril pelas cicatrizes do passado. Constrói-se na capacidade de enxergar os fachos de luz que cortam o horizonte — a educação, a ética, o respeito mútuo, a justiça e a esperança.
“Se queremos progredir, não devemos repetir a história, mas fazer uma história nova.” (Mahatma Gandhi)
Assim como Maria levou quase uma vida para compreender que o comando do pai era um chamado à sobrevivência, o Brasil precisa aprender a superar os traumas da caminhada e ouvir a voz que sobressai sobre o ruído das tempestades políticas: a exortação para não submergir na divisão. Que possamos, com lucidez, maturidade e discernimento, continuar braçada a braçada, superando as correntes contrárias e nadando com firmeza em direção à luz de um amanhã mais justo, democrático e próspero para todos.
“Quando os ventos da mudança sopram, algumas pessoas constroem moinhos de vento, enquanto outras constroem paraventos. O cenário político se transforma não pela força das tempestades, mas pela sabedoria de quem aprende a navegar com novos rumos.” (Provérbio)
São Luís, 24 de outubro de 2026.
Direitos reservados ao autor: José Carlos Castro Sanches.
Químico, professor, consultor, comunicador, escritor, cronista, contista, trovador, poeta e produtor cultural.
