Por José Carlos Castro Sanches
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“Não é porque as coisas são difíceis que não ousamos; é porque não ousamos que elas são difíceis.” (Sêneca)
Como os argentinos reagem em campo — tanto os protagonistas que vestem a camisa sagrada quanto a multidão que ruge nas arquibancadas — é um fenômeno estético e psicológico que desafia a lógica e merece profundo estudo. Enquanto outros povos se retraem diante da iminência da perda, eles parecem extrair uma força ancestral do próprio abismo. Agem, cantam e lutam como se a adversidade fosse um combustível, e não um freio.
Diante do Egito, quando o relógio sufocava as esperanças e a vitória egípcia parecia matematicamente garantida até os 35 minutos do segundo tempo, o impossível resolveu acontecer. Em uma fúria de apenas quatro minutos veio o empate; aos 45, o terceiro gol que definiu o placar. Uma apoteose que transformou o desespero em glória eterna.
“A maior glória em viver não consiste em jamais cair, mas em nos levantar cada vez que caímos.”(Nelson Mandela)
No centro desse turbilhão operou-se o drama de Lionel Messi. O gênio, em sua face mais humana e vulnerável, viu seu pênalti ser defendido pelo goleiro egípcio. Para qualquer outro, seria o golpe de misericórdia emocional; para ele, foi o estopim da revolta criativa. Messi continuou combativo, correu quando as pernas já pesavam e acabou por definir o placar da classificação na Copa 2026.
Essa postura magistral é explicada por dez características fundamentais que ele imprimiu na alma da seleção: uma resiliência inabalável que ignora o erro passado; a liderança silenciosa que arrasta o grupo pelo exemplo; sua visão periférica genial capaz de rasgar defesas compactas; o controle emocional sob pressão extrema; o foco obsessivo no objetivo final; a surpreendente capacidade de reinvenção tática; a humildade combativa de quem se doa como um operário; a genialidade imprevisível do drible curto; a lealdade ao coletivo acima do brilho individual; uma paixão visceral pelo jogo que o impede de aceitar a derrota.
O que faz, afinal, um suposto perdedor mudar o rumo da história no último minuto? A resposta reside na recusa absoluta em aceitar o veredito do tempo antes do apito final. Os argentinos agem com tanta determinação e entusiasmo diante dos desafios porque aprenderam que o futebol não é apenas um esporte, mas uma extensão da própria identidade, onde o sofrimento é apenas o rascunho necessário para a consagração.
“Tudo o que sei de mais certo sobre a moral e as obrigações dos homens, devo-o ao futebol.” (Albert Camus)
A memorável e inesquecível conquista sobre o Egito não me tornou torcedor da Argentina, mas deixa lições eternas sobre a condição humana. A maior delas é que o talento sem entrega é um adorno inútil, mas a técnica aliada à coragem é invencível. As virtudes que tornaram esse triunfo possível foram a solidariedade tática, a fé inabalável mútua e a bravura psicológica de um elenco que joga com o coração na ponta das chuteiras. Eles provaram ao mundo que a lógica é mera sugestão quando a alma decide vencer.
“O homem não foi feito para a derrota. Um homem pode ser destruído, mas não derrotado.” (Ernest Hemingway)
São Luís, 08 de julho de 2026.
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José Carlos Castro Sanches.
Químico, professor, consultor, comunicador, escritor, cronista, contista, trovador, poeta e produtor cultural.
