Por José Carlos Castro Sanches
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“O amor não se vê com os olhos, mas com o coração.” (William Shakespeare)
Dizem que o amor é uma costura fina, feita com os fios invisíveis do destino. Cinquenta anos atrás, em Bequimão, as linhas pareciam não querer se cruzar. O moço, fardado com as vestes da polícia, compensava a falta de “beleza” com uma audácia poética e uma teimosia de quem já previa o futuro. A donzela, jovem esbelta e de boa família, ao avistar o galanteador na esquina, corria para a casa da tia. Deixava o recado estratégico aos pais: “Se alguém me procurar, saí para visitar um parente”. Como lembra a própria Emília: “Eu olhava ele fardado passeando nas ruas da cidade e o achava exibido, entrava na minha casa para ele não me ver. Até o dia que me pegou de surpresa na porta”. Fugia não do homem, mas do susto que o coração dava ao notar a insistência daquele olhar.
Todavia, o destino faz o seu trabalho em silêncio. Num certo dia, o encontro aconteceu a contragosto, mas a prosa dele tinha o peso de uma promessa bonita. Ele a convenceu a namorar. Com o tempo — ah, o tempo, esse grande alquimista —, os olhos de Emília mudaram de foco. A suposta feiúra de Sebastião desbotou diante da grandeza de seus trejeitos, e ela passou a enxergar a beleza que só o afeto revela. O namoro virou noivado; o noivado, altar. O solo firme de São Luís do Maranhão acolheu esse ninho, onde brotaram dois filhos e uma filha, frutos de uma árvore que fincava raízes profundas.
Sucederam-se os dias. A vida a dois nunca foi uma linha reta, mas uma dança compassada entre a calmaria e a tempestade. O álbum dessas cinco décadas guarda registros de alegrias luminosas, viagens memoráveis, mas também de sombras: doenças que exigiram vigília, medos que testaram a coragem e a imensa gratidão que resgatava o sorriso após o pranto. Viver junto é aprender a gramática do silêncio e o momento exato de ceder o passo.
Diante de uma jornada assim, a pergunta ecoa: será que se aprende a amar ou o destino já nos apresenta a pessoa com o manual de convivência pronto? A verdade é que o casamento é o único contrato em que as cláusulas mudam enquanto o jogo acontece. Se o destino os uniu por teimosia, a convivência provou que o amor é uma espécie de “cegueira seletiva” muito bem-vinda: depois de meio século, as manias que antes irritavam viram piada, e os defeitos tornam-se apenas marcas de uso de um amor que deu certo. No fundo, casar é rir dos mesmos chistes e fingir que não se nota o ronco do outro.
Para os jovens que hoje olham o matrimônio com o ceticismo dos tempos modernos, a história de Sebastião e Emília é um manifesto. O sucesso de uma união não reside na ausência de tempestades, mas na qualidade do cais. Extrai-se daqui a lição da doação recíproca, onde ninguém perde por dar mais; da renúncia delicada, que não é anulação, mas espaço para o outro crescer; e da resiliência moldada na paciência cotidiana. Amar é aceitar que somos diferentes, pensando diferente, mas caminhando na mesma direção.
Hoje, tudo é festa. O cinquentenário de união transforma o ouro em poesia viva. Parabéns a esse casal querido, Sebastião e Emília, cujas vidas nos ensinam que o amor, quando verdadeiro, não cansa de se renovar.
Com admiração, respeito e o carinho eterno dos amigos, José Carlos & Socorro Sanches.
“O casamento feliz é um edifício que deve ser reconstruído todos os dias.” (André Maurois)
São Luís, 16 de julho de 2026.
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José Carlos Castro Sanches.
Químico, professor, consultor, comunicador, escritor, cronista, contista, trovador, poeta e produtor cultural.
