Por José Carlos Castro Sanches
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“A arquitetura é a arte que dispõe e adorna os edifícios erguidos pelo homem, para qualquer uso, de modo que a sua visão contribua para a sua saúde, força e prazer mental.” (John Ruskin)
Neste Dia de Finados, os olhos se voltam inevitavelmente para a finitude das coisas. A imagem da ruína dialoga com o vazio da perda: assim como a morte interrompe abruptamente o fluxo da vida, deixando o silêncio onde antes pulsava o movimento, a queda de uma estrutura rasga o mapa da memória. Toda perda traz uma dor incontida e uma saudade indescritível; as lembranças da vivência e os ecos da memória dão voz a esta escrita. Contudo, na arquitetura da existência, a demolição e o luto não são o ponto final, mas o terreno desocupado para o renascimento. Desabar é a dor inevitável do fim; reconstruir é o ato supremo de continuar.
“A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida.” (Vinicius de Moraes)
Construir pontes é o lema consagrado de grandes estadistas e uma metáfora perpétua para o progresso e a integração entre os povos. Reconhece-se a relevância dos engenheiros e a imponência do concreto que une margens distantes. No entanto, tão importante quanto a arte de edificar é a dolorosa necessidade de demolir, por representar o oposto da estagnação — o reconhecimento amargo de que certas estruturas do passado já não suportam o peso do futuro.
“Nada é permanente, exceto a mudança.” (Heráclito de Éfeso)
A Ponte da Estiva, tal como habitava os cenários da minha infância, era a grande artéria que trançava o destino da Ilha de Upaon-Açu ao continente, conectando São Luís a Rosário, minha terra natal. Com a reorganização territorial e a emancipação de Bacabeira, perdemos a ligação física de outrora, mas mantivemos a ponte afetiva intacta nas dobras da saudade.
“O homem é o tamanho do seu sonho.” (Fernando Pessoa)
Era domingo, 01 de novembro de 2026, às 10 horas da manhã, quando recebi com um misto de nostalgia e tristeza o aviso da Defesa Civil: a estrutura de concreto armado sobre o Estreito dos Mosquitos seria demolida. Em poucos segundos, viu-se virar poeira aquilo que levou anos para ser erguido e que serviu de palco para incontáveis idas e vindas à capital maranhense.
“O absurdo nasce do confronto entre a busca humana e o silêncio irrazonável do mundo.” (Albert Camus)
O fato curioso — e quase sobrenatural — é que, no exato instante em que a mensagem da Defesa Civil apitou, o celular da minha amada esposa bloqueou a tela e simplesmente deixou de funcionar. Restou-me pensar, com uma pitada de bom humor e espanto, que a onda de choque da implosão extrapolou os limites territoriais e viajou pelas frequências de rádio até nocautear nosso aparelho. Enquanto algumas casas no entorno sentiram a terra tremer com as explosões, a ponte não apenas foi demolida; ela decidiu levar consigo a conectividade de quem tentava testemunhar o seu fim.
“O tempo não para.” (Cazuza)
Pude visualizar o colapso da imponente estrutura, a nuvem densa subindo ao céu e o estampido das dinâmicas fazendo ruir décadas de história. Lembrei-me das inúmeras travessias na rural vermelha e branco do meu pai e até do dia em que os pneus do meu Sentra foram tragados por uma cratera que ocupava metade da pista daquela ponte — um prenúncio do seu próprio esgotamento.
“Aqueles que não conseguem lembrar o passado estão condenados a repeti-lo.” (George Santayana)
Diante da poeira assentada, a pergunta ecoa inevitável: por que permitimos que uma infraestrutura vital se deprecie ao ponto do colapso, em vez de zelar por sua manutenção contínua? A resposta reside na cultura do imediatismo e no descaso crônico com o patrimônio público. Prefere-se frequentemente o espetáculo da substituição à disciplina silenciosa da conservação, um reflexo de como lidamos com as nossas próprias estruturas sociais e materiais.
“A ciência é o grande antídoto contra o entusiasmo e a superstição.” (Adam Smith)
A técnica de implosão por detonação controlada exige um rigor milimétrico. Cargas de dinamite são posicionadas estrategicamente nos pontos de apoio para que a gravidade faça o trabalho final em segundos. Porém, para a Grande Ilha de São Luís, a consequência daquele estrondo vai além do isolamento momentâneo: impõe gargalos logísticos, reorganiza o tráfego de suprimentos e lembra a todos sobre a fragilidade das nossas vias de integração.
“A união faz a força.” (Esopo)
A construção de pontes permanece como o grande catalisador do progresso de uma nação. A ponte é o símbolo máximo da cooperação humana: um braço de concreto e aço estendido sobre o abismo para aproximar margens, unir culturas, integrar economias e encurtar as distâncias do afeto. Sem elas, o isolamento vence.
“Não são as respostas que movem o mundo, são as perguntas.” (Albert Einstein)
O que aprendemos com a demolição de uma ponte? Aprendemos que nada é eterno e que estruturas negligenciadas inevitavelmente caem. Qual o sentimento de perda associado ao fato? Uma nostalgia inevitável pelas memórias que ficaram no fundo do canal. A lição de vida que se extrai é a certeza de que desabar faz parte do processo de renovação. O que seria da humanidade sem as pontes? Seríamos ilhas isoladas em nossos próprios abismos. O que esperar do futuro? A coragem de projetar e erguer novas travessias, mais fortes e duradouras.
“Uma ponte é um monumento ao desejo humano de superar divisões e criar conexões onde antes só havia separação.” (Santiago Calatrava)
São Luís, 02 de novembro de 2026.
Direitos reservados ao autor: José Carlos Castro Sanches
Químico, professor, consultor, comunicador, escritor, cronista, contista, trovador, poeta e produtor cultural.



