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Oferece a você a oportunidade de leitura e reflexão sobre textos repletos de exemplos, experiências e lições que irão transformar a sua vida.

VIDA EXTRAORDINÁRIA DE UM POETA PEREGRINO

Por José Carlos Castro Sanches

Essa é a história de um poeta de rua que conheci recentemente e prometi ajudá-lo a escrever o seu primeiro livro de poemas, por meio desta crônica, decidi torná-lo conhecido com o propósito de divulgar o seu trabalho e conquistar o apoio de outras pessoas que se sensibilizarem com o relato de um peregrino de imaginação fértil numa rua deserta. Como disse Frederico Garcia Lorca: “A poesia é algo que anda pela rua”. Boa leitura e reflexão!

Numa quinta-feira, manhã ensolarada de 29 de dezembro de 2021, eu estava em meu escritório de onde escrevo os aprendizados e experiências da vida para compartilhar diariamente com os amigos e leitores, quando o telefone tocou. Logo atendi e do outro lado da linha falou um amigo de longa data da Alumar, empresa em que trabalhei por 27 anos. Era Merval Aguiar, que me brindava com aquela ligação inesperada, visto que há mais de 10 anos não tínhamos contato.  Contudo, a surpresa maior não foi a ligação, mas o motivo: o gesto nobre de empatia que fez o ex-metalúrgico perceber a necessidade de um morador de rua e ter o desejo de transformar um sonho em realidade. 

Aguiar apresentou-se dizendo: “Sanches sei que você é escritor, admiro seus escritos e queria convidá-lo a conhecer um poeta que conheci na rua e tem o desejo de ver seus poemas publicados em um livro”. E completou: “Poderíamos marcar um encontro para você conversar com ele? ” Respondi que tinha alguns compromissos programados para o final de ano e devido ao momento pandêmico preferia que a nossa reunião ocorresse no início do ano vindouro de 2022. Assim, marcamos para nos encontrarmos às 10h de 05 de fevereiro de 2022, na Praça dos Ipês, bairro do Angelim em São Luís do Maranhão.

Logo após a nossa conversa Aguiar me enviou alguns poemas do poeta desconhecido, depois da leitura, aumentou a minha curiosidade sobre o escritor exótico que se apresentava de maneira criativa com palavras nunca antes vistas por mim, dentro de um contexto que eu não conseguia entender claramente. Sem dúvida eu precisaria bater um papo com aquele noviço que despertava para a literatura, percorrendo solitário as ruas da cidade, escrevendo em papel achado nos cestos de lixo, dormindo nas calçadas usando como travesseiro a própria mochila único bem que possui além das roupas e chinelo. Ele transcende o pensamento comum com uma visão extraordinária da espiritualidade, além do corpo, crê na imortalidade d’alma. 

Chegou o dia do bate-papo com o poeta desconhecido, saí de casa debaixo de chuva, mas não poderia adiar aquele encontro, cheguei à Praça dos Ipês – lá estavam Aguiar e o poeta de rua, correndo para se abrigarem da forte chuva que caía – usei a buzina do meu carro para dizer que os via, enquanto eles corriam em direção ao veículo de Aguiar, a partir de então nos comunicamos por WhatsApp e Aguiar mudou o plano, fomos para sua residência e descemos debaixo d’agua, desviando-nos das águas que escorriam em grande quantidade pela rua até  nos abrigarmos na garagem, frontal à casa. Ali começamos uma longa conversa, sentados em cadeiras de PVC, apoiado em uma mesa do mesmo produto, comecei a escrever sobre o que ouvia. Antes, presenteei o anfitrião e o poeta com um bloco de papel e um estojo de canetas bic e disse a eles que aquele mimo era o meu “kit” preferido como cronista e poeta para captar e guardar as preciosidades sobre o que vejo, ouço, sinto, cheiro e degusto. Então, com a caneta e papel na mão eu estava livre para iniciar uma instigante viagem ao mundo do poeta desconhecido.

Tudo que relatei acima foi apenas para descrever a entrevista que fiz com o poeta desconhecido que segue abaixo:

Iniciamos, Merval Aguiar apresentou o conhecido andarilho que encontrou dormindo na porta de uma casa quando ia para o trabalho há dois anos, comoveu-se com a situação e desde então aproximou-se do desconhecido com o propósito de ajudá-lo, tudo porque durante a primeira conversa o poeta errante disse-lhe que era um escritor ambulante que peregrinava sem rumo pelas ruas do Angelim. O fato dele ter dito que era escritor inquietou Aguiar, que nutre admiração por pessoas que sabem escrever, diz ele, porque não tem essa habilidade. O que o despertou para ajudá-lo.

No final do ano Aguiar precisou fazer uma limpeza num terreno, lembrou-se do “poeta” e nesse momento os dois cruzaram o meu caminho inicialmente por pensamentos, ora pessoalmente.

O andarilho peregrino começou a escrever há 32 anos e iniciou a conversa, dizendo o seguinte: “Não é fácil se encontrar com o poeta que está dentro de você. ” Com essa frase o desconhecido até então passou a ser íntimo porque tocou o meu coração de poeta.

Continuou a explanação dizendo: “Não quero ser escritor, surgiu dentro de mim, mas sempre achava que faltava algo”. Vejam com quanta naturalidade, profundidade e riqueza d’alma o poeta decanta sua experiência.

Sem limitar o que ele dizia visto que pedi para contar-me um pouco da sua história, inicialmente inibido soltou a língua a dizer o que pensava, necessariamente não seguia uma linha de pensamento, às vezes divagava e eu apenas transcrevia o que escutava e vez por outra perguntava algo para direcionar o diálogo.

Vejam a riqueza compartilhada em duas horas de conversa produtiva e motivadora. Com a palavra o poeta peregrino:

Nasci em 15 de março de 1971, tenho 51 anos. Me envolvi com muitas mulheres, tenho 6 filhos, vivo distante deles por decisão própria. Devido às relações difíceis com mulheres da vida fui me distanciando da família e adaptando-me ao mundo. Como os meus pais também me deixaram, não me deram mais apoio eu precisava ser adulto e encarar o mundo como ele é.

Depois da loucura mundana procurei um estímulo para saber onde vou parar – busquei a palavra de Deus, o sentido eterno e comecei a ler a Bíblia. Não quero dar o corpo para o diabo. A palavra de Deus trouxe a resposta. Li a Bíblia toda. Ela trouxe uma visão da imortalidade, eu não acredito na morte. Nasci para viver eternamente como disse Jesus. Ele veio trazer a luz, o resgate de Deus por meio do seu filho Jesus como Salvador. Não importa dormir na rua e sentir fome. Nesta passagem o entrevistador percebeu no poeta a capacidade de superar adversidades e a visão da imortalidade.

Voltei a palavra ao poeta peregrino. As pessoas nos vêm com “Juízo aparente”. A saída da casa dos meus pais foi obrigatória. Vim para São Luís, mas saía fugido daqui para voltar à casa dos meus pais em Pinheiro/MA. O uso de álcool na adolescência mudou a minha relação com as pessoas.

Inspiro-me em Eclesiastes e Salomão para ver até onde vai a sabedoria humana, temo a Deus e guardo seus mandamentos. Esse é o dever de todos os homens. Tudo é vaidade.

Perguntei-lhe. Qual o seu sonho? Ele respondeu: “Montar uma banda para louvar a Jesus para liberar a poesia e a música que está dentro de mim”, dar sentido poético à música. E completou: “Já comprei um violão que usava mundanamente – fazia espetáculos no Reviver – ao final os colegas quebraram o violão. ”

Não tenho um lugar para dormir seguro. Dormi ontem na Vila Embratel em frente a uma Unidade Mista. Hoje vou dormir na Divinéia, porque vou fazer um trabalho amanhã.

Gosto da diversão no Reviver porque sinto que representa uma síntese da cultura profunda, alto astral sem preconceito, sem violência. Prevalece a cultura; papo 10, papo supremo.

Gosto de beber vinho “Três Coroas”. Quando eu chego eles dizem “o moreno do vinho”. Quando sinto o clima vou para o Reviver. Não perco o foco da vida.

O poeta peregrino declarou que quando Merval Aguiar o informou que iria conversar com José Carlos Sanches ele ficou muito interessado e começou a organizar seus escritos, colocou todos dentro de uma mochila que o acompanhava pelas andanças na Ilha de Upaon Açu. Enquanto dormia pela rua na semana que antecedeu a nossa conversa, roubaram a mochila com os escritos deixando-o triste, mas sem demonstrar apego ao que perdeu. Era apenas um lamento, sem traumas – para quem já aprendeu a viver um dia após o outro, sem saber onde irá dormir e o que comerá no próprio dia.

Perguntei-lhe: Como você se alimenta? Ele respondeu: sempre tem um meio. Anjo da Guarda, Angelim, Reviver, os feirantes de Guaíba. Sempre faço alguma coisa, trabalho como carregador e ganho o alimento. Acredito que todo homem tem que trabalhar para manter o sustento. Diz que ninguém pode viver sem trabalho para a sobrevivência própria.

Concluindo a nossa conversa pedi ao poeta para comentar e declamar alguns dos seus poemas, na seguinte ordem: 1) Poema Pop Reto – muito profundo, nele o poeta usa a palavra “vassourismo” – com o sentido de coisa que varre. No espiritual ele diz que significa: sim ao bom; não ao ruim. 2) Personalizado Marginalizado de Deus – neste poema ele traduz – a visão de si, o desprezo dos moradores de rua à deriva do tempo; reforça a palavra julgamento e o juízo aparente; 3) Rei dos Reis; 4) O Fim da Matéria; 5) Anjo Nocivo – a festa do Juízo Final – o poeta se sente vivendo os últimos tempos, sem preocupação com a vida;  6) Um pouquinho de sorte humana (Meu som oficial) – retrata a sobrevivência – se entrega como Jesus. Uma entrega legal.

Desde a escolha dos títulos para os poemas existe uma singularidade atrativa, ao adentrar na leitura dos versos encontramos o significado intrínseco da mensagem de um homem que sabe transferir os sentimentos e emoções de forma criativa para o papel, que certamente se orgulha do que nele ficará gravado. Como posso dizer: gravado na pedra pelo poeta peregrino que demonstra uma visão transcendental da vida. Parece estar muito além da concepção de viver que temos: desapegado de bens, sempre procurando um novo lugar; percebendo o mundo e as pessoas com um olhar diferente; descrevendo as percepções nos cadernos molhados encontrados nas ruas; perdendo o pouco que tem sem demonstrar sentimento de perda; vivendo cada dia como um novo olhar sem se preocupar com o amanhã. Cada dia é um novo amanhecer. Quando perguntei a ele onde iria dormir hoje, ele respondeu, não sei.

Para minha surpresa. O poeta cria palavras que têm sentido para o contexto dos poemas associados com sua realidade e vivência cotidiana. E o mais surpreendente é que ele é capaz de explicar todas as palavras novas, dando significado aos seus escritos, isso sim, na minha concepção é inovação e criatividade literária. Apesar de parecer no limbo, o poeta está muito acima do senso comum na sua extraordinária capacidade de ver o mundo e descrever em versos seus sentimentos profundos. É intrigante e ao mesmo tempo gratificante ter a oportunidade de conhecer um talentoso escritor anônimo ao qual desejo por meio destas palavras torná-lo visível num mundo de invisíveis.

Tomei como missão o compromisso de reunir os seus escritos e transformar em um livro para que o seu sonho de escritor se realize. É uma missão que não poderei realizar sozinho, devo aqui manifestar o meu pedido de apoio a todos que se sentiram tocados ou sensibilizados pela causa. Juntos somos mais fortes e poderemos vencer as tempestades, alegrar o poeta e elevar a literatura escondida nas calçadas das ruas da nossa cidade. Certamente ele trará luz e brilho para aqueles que ainda carecem de estímulo para tornarem realizáveis suas metas, objetivos e sonhos.

Perguntei-lhe finalmente:

Você tem alguma afinidade com religião?

O poeta respondeu: “Comecei na Assembleia de Deus, conheci um pouco da Universal; Igreja Católica; Cristã Evangélica em todas tem algo que discordo. Individualmente me considero uma Igreja de Deus. ”

Como é a sua relação com os filhos?

Ele descreveu que tem uma lembrança não muito boa de um evento que ocorreu quando seu primeiro filho nasceu. Trabalhava para uma empresa em que o proprietário confiava muito nele e tinha carta branca. No dia do nascimento do filho tendo acesso ao carro do patrão resolveu comemorar. Bateu com a S-10, num poste. Perdeu o emprego, a mulher e ficou uma frustração guardada consigo para sempre.

Não tem sentimento de perda por não cuidar dos filhos. Tem visão de pai, de ser filho de uma família, mas tem um corte quando se apercebe “está sozinho” como gosta de estar. O maior tempo que passou junto a um filho foi dois anos. Tem seis filhos: duas mulheres e quatro homens. Três casados. Três netos. Diz que não merece nada dos filhos, porque nada fez por eles. Os filhos respeitam a condição do pai na sua individualidade, morando na rua. Se considera um pai espiritual, não um pai presente. E conclui: “Como o pai “Deus” cuida de mim. Gosto do individualismo, não gosto de depender de ninguém para nada.”

O poeta peregrino chama-se: Carlos Augusto Ferraz.

Imagem: Merval Aguiar, Carlos Augusto Ferraz e José Carlos Sanches

Antes de iniciarmos pedi a autorização para escrever sobre a nossa conversa e disse ao entrevistado que para fazer a publicação precisaria da autorização dele – no que fui prontamente atendido – diante disso posso compartilhar um pouco do aprendizado nesta crônica sobre um poeta de rua que vive a poesia.

Publicarei alguns poemas no site falasanches.com com a devida permissão do autor, conforme a Lei nº 9.610/98, que confere ao autor direitos patrimoniais e morais da sua obra. Mantendo a originalmente da escrita pelo autor, sem revisão ortográfica e gramatical.

P.S. Um fato curioso, interessante e oportuno para o momento ocorreu durante a nossa conversa. Ainda chuviscava quando chegou em frente à casa de Merval Aguiar um jovem aparentemente saudável, boa aparência e bem vestido pedindo ajuda. Aguiar ao perceber a chegada do referido, levantou-se rapidamente pegou a carteira porta cédulas, retirou um trocado e entregou para o pedinte. Após a saída do rapaz perguntei para Carlos Augusto. O que você diz sobre isso? Ele respondeu: Acho que ele aparenta ser capaz, ter boa saúde deveria procurar algo para fazer em vez de pedir. E completou: “Se fosse eu não daria apenas o dinheiro para ele; daria também um conselho para ele refletir e tentar mudar de vida”.

Em seguida confessou que dificilmente pede ajuda em dinheiro para alguém, pede sempre uma oportunidade para realizar um trabalho. Todavia, quando precisa de alguém jamais abusa, nunca vai à mesma pessoa com frequência mesmo sabendo que sempre o ajudarão; antes avalia perfeitamente a quem deve pedir para evitar julgar o indivíduo que porventura não possa ajudá-lo. Disse que quase sempre obtém sucesso quando aborda alguém porque avalia criteriosamente o perfil da pessoa. Não age de forma aleatória é tudo pensado.

São Luís, 06 de fevereiro de 2022.

José Carlos Castro Sanches

É químico, professor, escritor, cronista e poeta maranhense. Membro Efetivo da Academia Luminense de Letras, da Academia Maranhense de Trovas, da Academia Rosariense de Letras, da Associação Maranhense de Escritores Independentes, da União Brasileira de Escritores e do PEN Clube do Brasil.

Autor dos livros: Colheita Peregrina, Tenho Pressa, A Jangada Passou; No Fluir das Horas é tempo de ler e escrever, A Vida é um Sopro, Gotas de Esperança, Pérolas da Jujuba com o Vovô e catorze livros inéditos. Visite o site falasanches.com e a página “Fala, Sanches” (Facebook) e conheça o nosso trabalho.

Adquira os Livros da Tríade Sancheana: Colheita Peregrina, Tenho Pressa e A Jangada Passou, na Livraria AMEI do São Luís Shopping ou através do acesso à loja on-line www.ameilivraria.com; os livros da Trilogia da Vida: No Fluir das Horas, Gotas de Esperança e A Vida é um Sopro!, no site da Editora Filos: https://filoseditora.com.br/?s=Sanches

O Livro “Pérolas da Jujuba como Vovô” com edição limitada você poderá adquirir diretamente com o autor ou na Livraria AMEI do São Luís Shopping. Shopping ou através do acesso à loja on-line www.ameilivraria.com

NOTA: Esta obra é original do autor José Carlos Castro Sanches e está licenciada com a licença JCS06.02.2022. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original. Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas. Esta medida fez-se necessária porque ocorreu plágio de algumas crônicas do autor, por outra pessoa que queria assumir a autoria da sua obra, sem a devida permissão – contrariando o direito à propriedade intelectual, amparado pela Lei nº 9.610/98, que confere ao autor direitos patrimoniais e morais da sua obra.

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Comments (4):

  1. Maura Luza Frazão

    11 de fevereiro de 2022 at 13:48

    Uma marcante história de vida digna de publicação.

    Responder
    • sanches

      30 de abril de 2022 at 15:03

      Obrigado e forte abraço querida Maura Luza Frazão.

      Responder
    • sanches

      1 de março de 2024 at 08:33

      ???

      Responder

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