Por José Carlos Castro Sanches
Site: www.falasanches.com
“O mistério da vida não é um problema a ser resolvido, mas uma realidade a ser experimentada.” (Humberto de Campos)
No dia 20 de agosto de 2026, sob a suave atmosfera da memória literária maranhense, Humberto de Campos recebeu a acolhedora comitiva de diretores da Academia Maranhense de Trovas – AMT. O intuito do promissor encontro foi articular, em perfeita sintonia com a Secretaria de Educação e a Secretaria de Cultura do Município, a solene comemoração dos 140 anos de nascimento do patrono que empresta seu ilustre nome à cidade. A programação delineada prevê um tocante momento de trovas, antecedido por oficinas trovistas e uma vibrante efervescência de manifestações culturais destinadas a abrilhantar a celebração na aprazível urbe humbertuense.
Estiveram presentes nessa marcante jornada as eminentes confreiras Wanda Cunha, Dilercy Adler, Clores Holanda, Franci Monteles e este que vós escreve, José Carlos Sanches — devidamente acompanhados por Fernando Santos, Secretário de Educação de Humberto de Campos, e pelos integrantes de sua dedicada equipe, além do precioso envolvimento da Secretária de Cultura, Maria José, e da Secretária de Administração, Ana Cláudia, entre outros distintos nomes da gestão local.
“A arte não reflete o visível, ela torna visível o que nem sempre se vê.” (Paul Klee)
A fluidez do diálogo, adornada pela receptividade, simpatia e contagiante vibração de todos os presentes, fortaleceu os laços de integração institucional e afetiva, transformando a missão cultural em uma vivência profundamente inspiradora. Ao declinar da tarde, o banho restaurador nas águas do balneário Periá, o peixe frito crocante e o camarão servido com a tradicional farinha d’água — iguarias apreciadas a preço de ouro — tornaram-se fiéis companheiros de prosa. Uniu-se ao grupo um autêntico poeta da terra que divagava em voz alta, entretecendo agudas insatisfações com os políticos locais a uma ardente exaltação poética de seu solo natal. Em suas declamações, reverenciava até mesmo a lendária Índia Potira, a quem prometera presentear com duas rolas- fogo-apagou. É preciso reconhecer: vem frequentemente dos poetas tidos por loucos a mais pura inspiração e a leveza singular capazes de fazer sorrir os lúcidos, os tolos, os incrédulos e os imortais.
“A poética da existência reside no olhar que transforma o cotidiano em travessia sagrada.” (Guimarães Rosa)
A itinerância cultural prosseguiu com um suave passeio à beira-rio, saboreando os artesanais sorvetes da Oba Oba, registrando momentos em fotografias junto ao barco e desfrutando de um amigável bate-papo no cais. Ao cair da noite, o generoso convite do Secretário Fernando para saborear um peixe assado arrematou o itinerário com chave de ouro. Foi ali que fomos carinhosamente presenteados por Fernando e José Ramos com amostras de Sal e Mel — frutos do esmero da produção familiar nas salinas regionais e das doces colmeias dos apiários locais.
Sal e mel configuram uma metáfora perfeita para traduzir o visível e o oculto, a verdade crua e a utopia sublime que entrelaçam a nossa sensível passagem por Humberto de Campos.
“O homem é um ser fronteiriço entre o sal da terra e o mel do céu.” (Gaston Bachelard)
O sal, em sua essência mineral e cristalina, ostenta características marcantes: é preservativo, rigoroso, purificador e intenso; confere sabor e acentua a verdade das coisas, simbolizando a rusticidade, a lágrima, a dor, o suor do trabalho e a realidade concreta da existência. O mel, por sua vez, fruto do labor paciente e coletivo das abelhas, sobressai por sua viscosidade, doçura, poder de cura e riqueza nutricional; simboliza o afeto, a esperança, o consolo, a utopia e a suavidade da vida.
A junção do sal e do mel revela um paradoxo fascinante no relacionamento humano. Esse encontro alquímico entre o amargo/salgado e o doce traduz o enigma da coexistência: a necessidade de equilíbrio entre a firmeza crítica da razão (o sal) e a sensibilidade acolhedora do afeto (o mel). É na tensão entre a realidade áspera e a doçura do sonho que a alma humana encontra sua plenitude e amadurecimento.
“Um povo sem conhecimento da sua história, origem e cultura é como uma árvore sem raízes.” (Marcus Garvey)
A literatura, a arte e a cultura desempenham um papel vital e insubstituível na estruturação do desenvolvimento social, ético e intelectual de uma comunidade. São elas que preservam a identidade coletiva, estimulam o pensamento crítico e garantem a manutenção das tradições mais elevadas. Através da criação artística, a memória de um povo ultrapassa as barreiras do tempo, permitindo que as futuras gerações compreendam suas origens e vislumbrem novos horizontes de emancipação e cidadania.
Por fim, cabe enfatizar a monumental contribuição de Humberto de Campos para a literatura brasileira. Cronista primoroso, memorialista de sensibilidade ímpar e mestre da palavra, ele soube capturar a alma do Brasil profundo com erudição, elegância e finíssima ironia. Sua vasta e perene obra imortalizou não apenas a sua terra natal, mas enriqueceu definitivamente o patrimônio cultural e o imaginário da nossa língua portuguesa.
São Luís, 22 de agosto de 2026.
Direitos reservados ao autor:
José Carlos Castro Sanches.
Químico, professor, consultor, comunicador, escritor, cronista, contista, trovador, poeta e produtor cultural.
