Por José Carlos Castro Sanches
Site: www.falasanches.com
“Memória é a gaveta dos sabores da alma.” (Mia Couto)
Mentira tem perna curta, mas a verdade senta à mesa e come queijo. Sebastião Moreira Duarte, 82 invernos bem vividos, é uma enciclopédia de capa dura com sorriso de orelha a orelha. Neste 03 de maio de 2026, reservamos o dia para prosear na casa do Sr. José Matias Moreira, em Axixá. E que prosa, senhores.
Por lá, comemos queijo curado, petiscos que piscavam pra gente, bebemos água de coco gelada e café passado na hora. O almoço? Um desfile: peixe cozido que desmanchava só de olhar, torta de carne que pedia bis, galinha caipira com história no tempero, farofa de soja crocante cantando no dente, macarrão soltinho feito conversa boa… e de sobremesa, doce de leite e de maracujá brigando pelo posto de favorito. Tudo farto, tudo movido a boa conversa dos irmãos Moreira e dos amigos Luís Varão e da esposa Dalva, Socorro Sanches e este que vos escreve. Tudo muito bem assessorado e organizado pelos anfitriões Moreira e Socorro Moreira, sua esposa, que regem a casa como quem rege orquestra: sem partitura, mas com afinação perfeita.
“Uma refeição sem conversa é como um livro sem palavras.” (Provérbio português)
Era um dia diferente, desses de resgatar o sertão paraibano sem sair da cadeira. A conversa girava em torno do Melão, terra natal dos Moreira, e das memórias do pai Cícero Moreira da Silva — tema central, altar e púlpito de todos os encontros em família. A verve humorística do velho pai permanece viva na memória dos filhos: um saudosismo alegre e reverente que inspira sorrisos e histórias tão criativas que a gente duvida se aconteceram ou se foram inventadas de tão boas. E se foram, que continuem sendo.
“Rir da própria história é o primeiro sinal de sabedoria.” (Luis Fernando Veríssimo)
Eu gosto de apreciar o conhecimento e sou apegado às tradições familiares, o que me faz sentir prazer ao estar junto a pessoas que têm apego às raízes, ao nome e ao prato feito em fogão de lenha. Mas o que me fascina nas pessoas é o conhecimento temperado com sabedoria, elementos fortemente destacados no amigo Sebastião Moreira Duarte. Dentre todos os intelectuais com quem tive o prazer de conviver até hoje, ele é o mais imponente, virtuoso e aculturado. De tudo que se possa falar, ele sabe um pouco — e desse pouco faz um banquete. Não foi em vão os 10 anos de internato no seminário católico, com média de 10 horas de estudo por dia. Em cada semestre, havia prova subjetiva escrita e oral de cada matéria de estudo. Disciplina de monge com faro de comerciante.
Quando se juntam a sabedoria do convento e o tino de um vendedor nato, o que resta é abrir os ouvidos e a mente. Das histórias brotam aprendizados; das lições de vida, exemplos que traduzem conhecimento, experiência, memória e legado. Sebastião é HD externo do século XX: guarda datas com CEP, nomes com RG, histórias com capítulo e versículo. Recita filosofia como quem recita o cardápio e costura sociologia entre uma garfada e outra. Tem memória numérica de fazer inveja a planilha de Excel e capacidade de persuasão que convenceria um peixe a comprar água.
“Inteligência é a arte de ligar pontos que ninguém viu.” (Millôr Fernandes)
Eu não me atreveria a listar os aprendizados, tampouco contar os “causos”, as verdades e invencionices da dupla. Mas estou certo de que cada palavra é motivo de reflexão e agradecimento.
Sebastião Moreira é do signo de Peixes — aquele que nada contra a correnteza do óbvio. E não está sozinho nesse cardume ilustre: Vinicius de Moraes também era de Peixes, com seu lirismo embriagado de vida; Gabriel García Márquez, pisciano, inventou Macondo e nos ensinou que a realidade pode ter asas; Elizabeth Bishop, Peixes, transformava geografia em poesia. E o seu amado pai Cícero Moreira da Silva. Gente que sente o mundo com as guelras da alma e transforma intuição em obra.
Enquanto isso, o seu irmão José Matias Moreira é do signo de Aquário — aquele que vive com um pé no futuro e outro no coração das pessoas. Aquarianos são visionários, livres por natureza, movidos por ideias que ainda nem nasceram. Carregam a simpatia como cartão de visitas, a empatia como bússola e o dom da palavra como ferramenta de transformação. Não à toa, grandes aquarianos brilharam na arte de encantar e convencer: Chiquinha Gonzaga, aquariana, vendeu partituras e sonhos quando mulher nenhuma ousava pisar no palco; Abraham Lincoln, Aquário, vendeu uma nação inteira à ideia da liberdade; Oprah Winfrey, aquariana, transformou escuta em império, provando que empatia também fecha negócios; e Airton Senna, Aquário, vendeu ao mundo a certeza de que genialidade e carisma correm juntos. José Matias Moreira, fiel ao seu signo, une a inquietude inventiva à capacidade rara de ouvir, acolher e, com um sorriso franco, abrir portas onde antes só havia muros.
Aos anfitriões José Matias Moreira e Socorro Moreira, meu muito obrigado pela oportunidade ímpar de convivência. Ali se cresce no conhecimento com histórias que transcendem o imaginário popular e nos elevam ao fantástico mundo das lembranças vivas, onde o passado serve à mesa farta e o futuro vem tomar café.
“Os amigos são a família que a vida nos permite escolher.” (Machado de Assis)
São Luís, 04 de maio de 2026.
Direitos reservados ao autor:
José Carlos Castro Sanches.
Químico, professor, consultor, comunicador, escritor, cronista, contista, trovador, poeta e produtor cultural.
