Por José Carlos Castro Sanches
Site: www.falasanches.com
Dia desses, tropecei em um relato que me fez parar para ajustar os óculos da alma. Era sobre um pai de 83 anos que, em cinco minutos, perguntou três vezes ao filho qual era o pássaro pousado na cerca. Na terceira repetição, o filho — moderno, apressado e impaciente — soltou uma resposta seca, dessas que cortam o silêncio como uma tesoura enferrujada. O velho apenas assentiu e, com o passo miúdo de quem carrega décadas nas costas, saiu de cena.
Voltou logo depois com um caderno de couro gasto. Nas páginas amareladas, o filho leu uma anotação de décadas atrás: “Hoje, meu filho me perguntou 27 vezes o que era aquilo. Respondi todas com um sorriso e um beijo. Foi um dia perfeito”. O soco no estômago veio sem aviso. Aquele menino curioso era o filho agora irritadiço. O tempo, esse sujeito irônico, não apenas leva a juventude; ele adora inverter os papéis. Quem ensinou a amarrar o sapato hoje esquece onde o deixou. Quem foi carregado no colo agora é o porto seguro.
A história me trouxe à mente minha sogra, com 90 primaveras. Outrora uma mulher de ferro, resolutiva, que cruzava a cidade de ônibus e ajudava meio mundo, até que se deparou com o tal “Velho Alzheimer”. Ele é um sujeito chato, uma espécie de larápio mental que faz uma lavagem cerebral gratuita em quem cruza seu caminho, apagando nomes, rostos e caminhos como quem apaga um quadro-negro.
Lembrei também do meu pai, 93 anos de idade. Homem de labuta, o pilar que criou oito filhos sob o império da ética e da honestidade. Recentemente, ainda ativo, mas teimando contra a gravidade, deu um susto na família: tropeçou e caiu. Por sorte, o destino colocou mãos ágeis por perto para levantá-lo a tempo sem maiores consequências. É estranho ver o gigante que nos dava segurança agora precisar de um olhar atento para não perder o equilíbrio.
Até o escritor Ignácio de Loyola, em visita à nossa São Luís, falou sobre isso com o seu “Risco de Queda”. A velhice é mesmo um livro cheio de “causos” miraculosos e fragilidades expostas. Fico aqui pensando se dou razão ao meu sogro Davi, que partiu aos 94 jurando que depois dos 70 a vida é só enfado e canseira, ou se sigo o otimismo centenário do meu avô José Alípio Sanches. O velho Alípio só descobriu que a velhice cansava depois de completar um século de vida. Morreu aos 107, dois dias após cair no banheiro — partiu de mansinho, provavelmente para não deixar minha avó Rita Zelia Sanches (Zelica) esperando sozinha no paraíso por mais tempo.
E agora, entre histórias de Alzheimer e peripécias da idade, olho para os meus 64 anos e para os meus colegas de jornada. O que nos aguarda ali na frente? O tempo é um pássaro na cerca: hoje perguntamos o nome dele, amanhã, talvez, precisaremos que alguém nos responda com o mesmo beijo na cabeça que um dia entregamos ao mundo.
São Luís, 16 de abril de 2026.
José Carlos Castro Sanches.
É Consultor de SSMA da Business Partners Serviços Empresariais – BPSE. Químico, professor, comunicador, escritor, cronista, contista, trovador e poeta maranhense. Membro Efetivo do PEN Clube do Brasil, da Academia Luminense de Letras, da Academia Maranhense de Trovas, da Academia Literária do Maranhão, da Academia Rosariense de Letras Artes e Ciências, da Academia Maranhense de Ciências e Belas Artes, da Academia de Letras, Artes e Cultura de Coroatá, da Sociedade de Cultura Latina do Estado do Maranhão, da Federação das Academias de Letras do Maranhão, da União Brasileira de Escritores, da Associação Maranhense de Escritores Independentes. Membro correspondente da Academia Arariense de Letras, Artes e Ciências, da Academia Vianense de Letras e da Academia Icatuense de Letras, Ciências e Artes. Tem a literatura como hobby. Para Sanches, escrever é um ato de amor e liberdade.
Autor dos livros: Tríade Sancheana – Colheita Peregrina, Tenho Pressa, A Jangada Passou; Trilogia da Vida: No Fluir das Horas, Gotas de Esperança e A Vida é um Sopro!; Pérolas da Jujuba com o Vovô, Pétalas ao Vento; Série Três Viagens: Das coisas que vivi na serra gaúcha, Me Leva na mala, Divagando na Fantasia em Orlando; O Voo da Fantasia e Momentos do Cotidiano. Livros em parceria: Borboletas & Colibris, TROVOAR – Trovas para Inspirar e Sonhar e ECOS – da Academia Maranhense de Trovas. Participa de diversas antologias brasileiras.
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