Por José Carlos Castro Sanches
Site: www.falasanches.com
“A arte não existe para ser guardada, mas para ser espalhada e tocar as almas.” (Mário de Andrade)
Não se enganem: a propaganda é a alma do negócio, como diz o provérbio popular. Estávamos reunidos na praça de alimentação do Monumental Shopping — Wanda Cunha, Dilercy Adler, Franci Monteles, Clores Holanda e eu, membros da diretoria da Academia Maranhense de Trovas (AMT) —, juntamente com Fernando Ramos dos Santos, Secretário de Educação do Município de Humberto de Campos. O motivo do encontro eram os acertos preliminares da programação em comemoração aos 140 anos de nascimento de Humberto de Campos, que serão celebrados em 25 de outubro de 2026.
Antes da minha chegada ao local, havia passado por lá o escritor Luis Augusto Guterres, que presenteou as colegas com um exemplar do seu livro de poemas, “As 7 Estações da Vida”, prefaciado por Nauro Machado e Alberico Carneiro. Durante a espera pelo secretário, as acadêmicas liam os poemas e faziam comentários; logo senti o desejo de conhecer o conteúdo da obra. Quando saíamos do local de encontro, o destino fez com que reencontrássemos o autor, que nos convidou a visitar o seu escritório. Lá, fui brindado com um exemplar, além de mais dois doados para as bibliotecas da Academia Maranhense de Trovas e da Academia Ludovicense de Letras (ALL), aos cuidados das confreiras Clores e Dilercy.
Como dito inicialmente, não fosse a generosa iniciativa do poeta em nos prestigiar com seus escritos, certamente eu perderia a oportunidade de conhecer e divulgar a sua produção literária, ao mesmo tempo em que ele tornou visível o seu belo trabalho.
“O valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem.” (Fernando Pessoa)
Ao chegar em casa, após o encontro, ainda que a barriga pedisse alimento, detive-me na leitura dos 49 poemas distribuídos ao longo de 76 páginas, em parte ilustradas, pertencentes a uma atrativa série poética de escritos curtos, objetivos e reflexivos.
É admirável a postura do autor ao doar “As 7 Estações da Vida”. Admito essa surpresa pelo simples fato de que este que vos escreve não costuma exercitar com tanta frequência o hábito de doação de suas obras físicas — dado o trabalho árduo, independente e solitário para produzi-las. Afinal, ao distribuí-las gratuitamente, entrega-se o sangue, o talento, o tempo investido, os escassos recursos aplicados, a inspiração e o coração depositados em cada página. Ainda assim, compartilho diariamente meus escritos de forma gratuita nas redes sociais e em outros meios.
Talvez eu esteja errado ao pensar que o livro impresso deveria ser sempre comercializado para rentabilizar a arte. Independentemente do que penso a respeito dessa prática, acolho a atitude do autor como uma virtude assertiva e motivadora. Luis Augusto Guterres acertou em sua decisão. Li, gostei e indico a leitura. Só descobrimos o valor de cada obra quando nos permitimos folheá-la e senti-la.
Doar ou comercializar a arte é um dilema antigo entre os criadores. De um lado, há o reconhecimento do custo financeiro e do esforço pessoal para transformar sentimentos em papel; do outro, há o desejo sublime de fazer a palavra fluir e alcançar o leitor sem barreiras. No fim das contas, a doação não empobrece o escritor; pelo contrário, multiplica a sua voz e eterniza o seu pensamento no coração de quem lê.
Afinal, o que mais importa senão tocar a alma do outro com as nossas palavras?
E você, caro leitor: considera que a iniciativa de doar livros físicos é uma prática positiva que deve ser incentivada para democratizar a leitura, ou acredita que a compra da obra é indispensável para valorizar o trabalho do escritor?
São Luís, 17 de agosto de 2026.
Direitos reservados ao autor:
José Carlos Castro Sanches.
Químico, professor, consultor, comunicador, escritor, cronista, contista, trovador, poeta e produtor cultural.
