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Oferece a você a oportunidade de leitura e reflexão sobre textos repletos de exemplos, experiências e lições que irão transformar a sua vida.

O SILÊNCIO VAZIO

Por José Carlos Castro Sanches.

Site: www.falasanches.com

 “O silêncio é a lisonja mais perfeita.” (Oliver Goldsmith)

Era uma manhã ensolarada de domingo, 20 de setembro de 2026. As flores já anunciavam a chegada da primavera enquanto eu fazia o trajeto de retorno da casa dos meus pais, em Rosário, rumo ao meu doce lar em São Luís.

A van vinha tão lotada que a viagem exigiu proezas de malabarismo: viemos em pé, eu e a cuidadora do meu pai, que me acompanhou nessa nobre missão familiar.

Curiosamente, os jovens acomodados nos assentos confortáveis do veículo pareciam usar capas de invisibilidade moral, pois não se sensibilizaram nem com a exausta cuidadora, tampouco comigo. Permanecemos firmes e em pé até que dois passageiros generosos (ou apenas ávidos por descer) apeassem no meio do caminho.

O silêncio dentro daquele veículo era quase aterrador. Não o silêncio contemplativo da paz, mas aquele vácuo constrangedor onde todo mundo finge que não vê o caos alheio.

Essa redoma de gelo só foi quebrada quando um jovem passageiro decidiu romper a paz — não por gentileza, mas para afrontar o cobrador, recusando-se a pagar a passagem. Na insistência do bate-boca, ficou cristalino que o rapaz queria apenas dar uma de esperto à custa do suor alheio.

Ao perceber o imbróglio, o motorista não hesitou: parou a van e gentilmente convidou o “malandro” a descer ali mesmo, no asfalto quente da BR-135, nas adjacências do Maracanã. De brinde, ganhou uma caminhada solitária sob o sol da nossa bela ilha.

O episódio me rendeu profundas reflexões sobre a vida em sociedade e as pequenas dinâmicas do cotidiano:     

A boa comunicação facilita a interação e evita que mal-entendidos ganhem contornos dramáticos no meio da rodovia.

O respeito mútuo gera empatia, transformando um trajeto desconfortável em um exercício de humanidade.

A arrogância do passageiro no trato com o cobrador provocou resistência imediata, provando que a soberba precede a queda (ou a descida forçada).

O motorista foi prudente ao agir com firmeza diante da afronta, restabelecendo a ordem sem perder o controle da situação.

A convivência urbana é um espelho frágil: quando escolhemos o silêncio diante da descortesia, terceirizamos a justiça até que alguém precise, literalmente, parar o veículo para nos ensinar sobre limites.

No fim das contas, a viagem nos lembra que a vida coletiva não precisa ser uma guerra silenciosa de egos. Que possamos ceder nossos lugares — físicos e emocionais — uns aos outros, antes que o destino nos obrigue a descer no acostamento da própria incoerência.

“A verdadeira generosidade para com o futuro consiste em dar tudo ao presente.” (Albert Camus)

São Luís, 20 de setembro de 2026.

Direitos reservados ao autor: José Carlos Castro Sanches.

Químico, professor, consultor, comunicador, escritor, cronista, contista, trovador, poeta e produtor cultural.

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