Por José Carlos Castro Sanches
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“O Alzheimer não apaga a pessoa, ele apenas a esconde atrás de um véu de esquecimento. O que resta é a essência, que muitas vezes só o coração consegue acessar.” (Desconhecido)
Durante o jantar, após minha chegada à casa dos meus pais para o plantão noturno, sentei-me ao lado dos meus amados pais, José Firmino Sanches e Zanilde Castro Sanches. O ambiente era tranquilo, mas o ar trazia a névoa sutil e traiçoeira do Alzheimer. Ele me olhou, curioso, como quem observa um viajante perdido, e iniciou o diálogo:
— Você é de Anajatuba? — perguntou, com a voz serena.
— Não, pai. Sou de São Luís — respondi, sentindo um aperto no peito ao perceber o distanciamento em seu olhar.
— Você conhece a Picada? — insistiu, referindo-se a um lugar em sua terra natal.
— Fui lá uma vez com o meu avô José Alípio, o seu pai — expliquei, buscando algum fio de memória que pudesse conectá-lo ao passado.
Ele hesitou, pensativo, e questionou novamente:
— Tens alguma relação com esta família?
— Sim, com vocês dois — respondi, apontando para ele e para minha mãe, que nos observava em silêncio.
Arrisquei um teste, uma tentativa de ancorá-lo no presente:
— Pai, quantos filhos você tem?
— Oito — respondeu prontamente.
— E qual o nome deles?
Ele sacudiu a cabeça, os olhos vagando pelo vazio. A resposta fugia, como água entre os dedos. Continuou:
— Qual a sua idade?
— Sessenta e quatro anos — respondi.
Ele sorriu, um brilho de lucidez surgindo por um breve instante.
— O mesmo “preço” de Zequinha — comentou.
Aproveitei o momento e retirei da mochila o meu livro, Guilhermina: Do Barro às Estrelas. Ao vê-lo, ele perguntou, com genuína curiosidade:
— De quem é este livro?
— É meu, pai. Sou escritor — respondi com suavidade.
Ele olhou para a capa, depois para mim, e afirmou com orgulho:
— O meu filho Zequinha também é escritor.
Naquele instante, o Alzheimer desenhava um cenário cruel e, ao mesmo tempo, poético. Para ele, eu era um estranho simpático, mas dentro daquela névoa, a identidade do seu filho Zequinha permanecia intacta, cristalina, preservada como um tesouro intocável. Como explicar que aquele desconhecido à sua frente era o mesmo homem que ele carregava na memória afetiva?
Chegou a hora de dormir. Olhando para a minha mãe, ele ponderou, preocupado com o protocolo:
— Ele vai dormir naquele quarto, ao fundo?
Minha mãe, Zazá, interveio prontamente:
— Não, ele vai dormir no nosso quarto.
— Mas não seria apenas o casal no quarto? — ele questionou, confuso com a lógica do arranjo.
Ao final, cedemos ao cansaço. Seguimos para o quarto e, mais tarde, adormecemos no mesmo ambiente. O sono, generoso, parece ter restaurado as pontes neurais interrompidas. Pela manhã, senti que ele me reconhecera, finalmente. O primogênito voltara a ser, aos olhos do pai, o filho que nunca partiu. Assim eu creio!
“O Alzheimer é uma doença que rouba o passado, mas não pode roubar o amor de pai e filho construído ao longo de uma vida.” (José Carlos Castro Sanches)
Rosário, 23 de junho de 2026.
Direitos reservados ao autor: José Carlos Castro Sanches.
Químico, professor, consultor, comunicador, escritor, cronista, contista, trovador, poeta e produtor cultural.
