Por José Carlos Castro Sanches
Site: www.falasanches.com
“A saúde é o estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não apenas a ausência de doenças ou enfermidades.” — Organização Mundial da Saúde (OMS)
O calendário nos presenteia com sincronicidades inquietantes. O dia 10 de outubro carrega em sua essência um triplo convite à consciência: é o Dia Mundial da Saúde Mental, o Dia Nacional da Luta contra a Violência à Mulher e o Dia Internacional do Fonoaudiólogo. Em um mundo atravessado por exigências desmedidas e ruídos ensurdecedores, olhar para esses três marcos não é mera coincidência cronológica, mas uma oportunidade urgente de desacelerar, ouvir e agir.
O que dizer sobre a saúde mental em tempos de inteligência artificial, disputas políticas polarizadas, busca obsessiva por soluções imediatas, impaciência crônica e pensamento acelerado? Vivemos imersos no vício eletrônico, no isolamento social em meio à hiper conexão, na perda do sono restaurador, na ansiedade sufocante, na depressão silenciosa, no estresse ocupacional (burnout) e na constante sobrecarga de informações. Nesse cenário de urgências contínuas, cuidar da mente tornou-se um ato de resistência e preservação da nossa própria humanidade.
“A violência contra a mulher é a manifestação de relações de poder historicamente desiguais entre homens e mulheres.” (Amnistia Internacional)
Nesse mesmo dia, recordamos o movimento histórico de 1980 que ergueu a voz contra os crimes de gênero no Brasil. Contudo, uma pergunta incômoda persiste: por que a violência contra a mulher continua a crescer, mesmo com leis progressivamente mais severas? Não estaria essa tragédia alimentada pela impunidade, pela omissão das autoridades, pelo machismo estrutural e pelo silêncio imposto pelo medo e pela dependência? Nenhuma fragilidade justifica o ato de agressão; nenhuma razão justifica a dor infligida.
Para que a violência seja banida de vez, precisamos reafirmar compromissos éticos fundamentais. O homem jamais deve ser violento porque:
O respeito à dignidade humana e à integridade física e emocional é um dever inegociável;
O amor e o afeto não se constroem sobre o medo, o domínio ou a força bruta;
A masculinidade saudável se expressa na proteção, no diálogo e no cuidado, nunca no abuso;
A violência perpetua ciclos traumáticos que destroem famílias e contaminam gerações;
Nenhum pretexto — seja estresse, ciúme ou frustração — justifica a agressão contra outro ser humano.
Da mesma forma, nenhuma mulher deve aceitar ou se submeter à violência, pois:
Toda pessoa tem o direito inalienável de viver com segurança, liberdade e paz;
O silêncio e a submissão não cessam o abuso, apenas alimentam a sensação de impunidade do agressor;
Relações conjugais, dependência financeira, crenças religiosas ou laços emocionais jamais devem se sobrepor ao direito à vida e à dignidade;
Buscar ajuda é um ato de coragem e o primeiro passo para romper as correntes da opressão;
Cada mulher é dona de sua própria história e merece ser tratada com amor, igualdade e profundo respeito.
“Para ouvir o outro, é preciso primeiro aprender a escutar o silêncio que mora atrás das palavras.” (Rubem Alves)
A presença da fonoaudiologia nesta mesma data nos traz um simbolismo profundo e poético. Ela nos alerta para a necessidade de manter nossos ouvidos sensíveis aos ruídos sutis e aos pedidos de socorro que muitas vezes não chegam em tom alto, mas no sussurro sufocado das mulheres maltratadas e das mentes exaustas. É preciso usar a nossa capacidade de escuta para dar voz a quem foi calado e clamar por justiça, respeito e restauração.
No encontro desses três caminhos, descobrimos uma verdade transformadora: a saúde mental, a não violência e a escuta atenta estão intrinsecamente ligadas. Não haverá mente sã em uma sociedade que tolera a dor do outro, assim como não haverá paz enquanto fecharmos os ouvidos aos clamores por dignidade. Que possamos adotar uma postura proativa em defesa do bem-estar emocional, manter uma atitude firme e intransigente contra a violência de gênero e cultivar a sensibilidade auditiva para ouvir o que a alma do mundo tenta nos dizer. Prevenir o sofrimento é, acima de tudo, um compromisso diário com a vida.
São Luís, 10 de outubro de 2026.
Direitos reservados ao autor: José Carlos Castro Sanches.
Químico, professor, consultor, comunicador, escritor, cronista, contista, trovador, poeta e produtor cultural.
