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Oferece a você a oportunidade de leitura e reflexão sobre textos repletos de exemplos, experiências e lições que irão transformar a sua vida.

O ECO DA GRATIDÃO (Um Encontro com a Humanidade no Asilo de Mendicidade)

Por José Carlos Castro Sanches

Site: www.falasanches.com                                                                

“A velhice não é um naufrágio, é um porto. É o tempo em que a vida, após ter corrido tanto, encontra finalmente a sua própria verdade. Cuidar de um idoso é cuidar da memória viva da nossa própria história.” (José Saramago)

​Neste 20 de junho de 2026, abrimos um parêntese na rotina para um encontro que reverberou na alma: estivemos no Asilo de Mendicidade de São Luís. A Academia Maranhense de Ciências e Belas Artes (AMCIBA) promoveu uma ação especial que transformou o dia de cerca de 20 idosos e 10 funcionários. Foi um momento de interação profunda, onde as barreiras do tempo pareceram se dissolver através da cultura e do entretenimento. Estávamos lá, a presidente da instituição, Ilma Cabral e eu, acompanhados de nossos parceiros, Laurentino Cabral e Socorro Sanches, deixando materiais de higiene pessoal, frutos da solidariedade dos nossos acadêmicos.

“A velhice é uma conquista, mas a solidão que a acompanha é uma ferida que a sociedade ainda não aprendeu a curar.” (Simone de Beauvoir)

Para romper o silêncio e despertar a memória viva dos presentes, utilizamos o tema motivador: “No meu tempo era assim…”. A proposta foi um sucesso absoluto. A frase funcionou como uma chave que abriu baús guardados na poeira do tempo, gerando uma troca emocionante de experiências e relatos de vida. Ouvimos histórias de superação, amores antigos e a sabedoria de quem viu o mundo mudar. O “antigamente” ganhou cores, sons e uma dignidade renovada através daquelas falas, envolvendo a todos em uma atmosfera de profunda escuta e respeito.

É doloroso, contudo, observar o movimento de famílias que, sob o peso de justificativas apressadas, optam por deixar pais e avós à margem. O abandono revela uma crise ética profunda: a descartabilidade do ser humano. Essa ingratidão familiar ignora a dívida ancestral que temos com aqueles que, outrora, foram nossos pilares.

“A gratidão é o único tesouro dos humildes.” (William Shakespeare)

Em contraponto a esse abandono, presenciamos a beleza do amor contido nos gestos dos cuidadores. Ao nos relatarem suas vivências, notamos olhos marejados de quem compreende a nobreza da sua missão. É a curiosa e inspiradora adesão de pessoas dispostas a ajudar sem nada em troca: o alimento, o cuidado, o remédio, o zelo, a roupa lavada, o perfume, a cama, o aconchego e o passeio ao sol. Eles compartilharam como o carinho do idoso, mesmo na fragilidade, retorna como uma lição de vida. O cuidado torna-se, para eles, um exercício diário de generosidade e o amor ao próximo colocado em prática.

Há uma poesia amarga e doce na perspectiva daquele que, por vezes negligenciado por quem lhe deu a vida, encontra consolo nas mãos de um estranho. É um paradoxo humano: a doação mais pura vem, frequentemente, de quem não possui laços de sangue, mas laços de humanidade. Esses cuidadores são anjos divinos que, no anonimato, transformam a doação e o carinho em uma forma sublime de oração.

“Envelhecer é a maior aventura da vida.” (Platão)

Que este relato sirva como um chamado ao despertar.  Convido cada leitor a atravessar os portões de um asilo. Ajude na manutenção, doe um pouco do seu tempo e, ao ouvir um “no meu tempo era assim…”, entenda que você está diante de uma biblioteca viva. Não espere gratidão, pois o maior presente é descobrir que, ao servir ao próximo, somos nós que nos salvamos da própria vacuidade. Resgatar o idoso é resgatar a nossa própria história e o exercício pleno do amor ao próximo.

“Uma sociedade que não respeita e não protege os seus idosos é uma sociedade que perdeu a sua bússola moral. O amor que dedicamos aos que envelhecem não é apenas um ato de caridade, é um ato de reconhecimento pela nossa própria humanidade.” (Papa Francisco)                ​                                                  

São Luís, 20 de junho de 2026.                                                                                

Direitos reservados ao autor:                                          

José Carlos Castro Sanches.

Químico, professor, consultor, comunicador, escritor, cronista, trovador, poeta e promotor cultural.

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