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O ECO DA ALDEIA NA ÁGORA (Narruria e os Caminhos da Alma)

Por José Carlos Castro Sanches

Site: www.falasanches.com

“A educação não transforma o mundo. A educação muda as pessoas. Pessoas mudam o mundo.” (Paulo Freire)

Era 12 de setembro de 2026 quando ocorreu a abertura da II FLAPOFRAN — Feira do Livro de Porto Franco, no sul do Maranhão. Lá fora, o sol ardente dava o tom iluminado na cidade e o calor insuportável fazia urubu voar com uma asa e se abanar com a outra. Mas tudo era possível suportar para estar naquele encontro de acadêmicos, escritores e interessados no assunto, mergulhados na atmosfera vibrante das letras e do saber.

Durante um painel com três participantes — tendo como mediador um professor da UFT (Universidade Federal do Tocantins), um estudioso do tema e gestor de departamento, e a indígena estudante de psicologia Narruria Javaé —, fui surpreendido e sensibilizado pela situação da educação indígena, especialmente pelas revelações da aluna durante a palestra. Sua voz trouxe à tona a imensidão invisível que separa a aldeia protegida da selva de concreto acadêmica.

“O índio na universidade não perde a sua essência; ele estica as margens do seu mundo para conter a dor e a esperança de seu povo.” (Darcy Ribeiro)

O percurso é árduo desde o primeiro passo. Entre as grandes dificuldades dos indígenas ao entrarem na universidade, destacam-se o medo do índio de sair da aldeia — um espaço tão pequeno e seguro para um mundo tão grande e desconhecido —, além do fator financeiro, o profundo apego à família e a complexa convivência social na universidade. É uma fala reflexiva sobre as adversidades e desafios do índio na universidade, marcada por bloqueios de costumes, choques com as diferenças e o turbilhão de novidades que assaltam os sentidos.

Contudo, a força ancestral fala mais alto. Como a mãe já dizia, era preciso estudar para poder crescer, retornar para a aldeia e manter viva a cultura. Narruria foi para a universidade motivada a cursar psicologia para entender o alto índice de suicídio de jovens na aldeia, uma chaga dolorosa que clareia a urgência de respostas humanas. Mas não é fácil manter o curso por diversos fatores externos: ela sente falta de falar a língua nativa, do acolhimento genuíno, do peixe frito, da mandioca, da farinha que carrega o cheiro da terra.

“Conheça todas as teorias, domine todas as técnicas, mas ao tocar uma alma humana, seja apenas outra alma humana.” (Carl Jung)

Como ela bem aponta, os índios devem se sentir pertencentes àquele espaço. Sente-se imensamente a falta de professores indígenas na universidade, bem como persistem barreiras na escrita da língua portuguesa. Seria fundamental promover jogos indígenas dentro da instituição, embora haja pouco apoio. Os alunos indígenas, normalmente inibidos e tímidos, acabam relegados ao fundo da sala. Por isso, Narruria busca ativamente integrar os novos alunos e fortalecer a presença dos povos originários na universidade, combatendo a falta de respeito e o bullying que tantas vezes fazem alunos indígenas desistirem dos cursos, entre outras condições adversas.

Ademais, a burocracia dificulta o acesso dos índios à universidade; o que para muitos parece simples no universo tecnológico, para o indígena representa um labirinto de barreiras invisíveis. É a brava índia Narruria Javaé desbravando atalhos para que o futuro de seu povo seja menos espinhoso.

O desafio de Narruria e de tantos outros estudantes originários não é apenas um problema acadêmico, mas um teste moral coletivo. Cabe à sociedade desatar preconceitos; aos governantes e gestores públicos, garantir políticas públicas de permanência real; às entidades de classe, estender redes de proteção jurídica e humana; e aos professores e alunos, transformar a sala de aula em um território de escuta sensível e acolhimento. Mais do que incluir corpos em assentos universitários, é preciso descolonizar mentes e corações. Que a universidade deixe de ser um muro que afasta e passe a ser o grande terreiro onde todas as sabedorias do mundo possam, enfim, dançar em ciranda e salvar vidas.

Porto Franco, 12 de setembro de 2026.

Direitos reservados ao autor: José Carlos Castro Sanches.

Químico, professor, consultor, comunicador, escritor, cronista, contista, trovador, poeta e produtor cultural.

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