Por José Carlos Castro Sanches
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“A política é a arte de gerir os negócios públicos para o bem de todos; quando se torna a arte de promover os interesses próprios, deixa de ser política e passa a ser usurpação.” (Aristóteles)
Tibúrcio era a encarnação viva do “cidadão de bem” de ocasião. Tinha trânsito livre nos bastidores da municipalidade, sorriso plastificado no rosto e uma lábia tão afinada que vendia até geladeira para esquimó. Contudo, sua ambição voava mais alto: ele almejava uma vistosa cadeira lá no Congresso Nacional, em Brasilis. Afinal, em sua visão refinada (e bastante conveniente), o foro privilegiado era o verdadeiro Santo Graal — o abrigo perfeito para blindar uma trajetória recheada de cambalachos, malandragens e oportunas “alibabices”.
Para arrematar o pacote de salvador da pátria, Tibúrcio lembrou-se do berço evangélico dos pais e rapidamente filiou-se a uma igreja protestante. Com a bíblia debaixo do braço, a lábia afinada e um arsenal de promessas mirabolantes, fez-se de rogado, candidatou-se ao Senado e… voilà! O golpe perfeito. Uma vez eleito, a metamorfose foi instantânea: trocou o eleitorado humilde pelo champagne com caviar na corte, mudou de partido como quem troca de meia e desenvolveu uma repentina e grave amnésia seletiva em relação às feiras do bairro e aos velhos apertos de mão.
O tempo, contudo, tem o péssimo hábito de passar. Com o fim do mandato se aproximando no horizonte, a iluminação divina baixou novamente sobre Tibúrcio. Como um cometa eleitoral que só dá as caras de tempos em tempos, ele ressurgiu milagrosamente nas comunidades: voltou a frequentar os cultos, passou a tomar café coado em copo americano com os vizinhos e abraçou até cachorro de rua. O plano era infalível: dar aquele “migué” habitual, garantir mais alguns anos de mamata e sumir do mapa outra vez.
Só que nosso ilustre candidato esqueceu-se de um pequeno detalhe: o povo pode até demorar para reagir, mas a surra da vida ensina. O eleitor, escaldado por tanta necessidade e descaramento, já não era mais aquele bobo manipulado por um tapinha nas costas, um discurso inflamado ou uma nota de cinquenta reais escondida na meia. Quando as urnas foram abertas, a realidade veio como um soco: Tibúrcio naufragou miseravelmente na rabeira da apuração, afundando mais rápido que o Titanic no Atlântico Norte.
O destino de Tibúrcio — e de tantos outros ilusionistas de paletó — acabou sendo o único coerente: a sarjeta do esquecimento político. Sem gabinete, sem assessores para pagar seu cafezinho e sem a bendita imunidade, restou-lhe encarar a fila do RH ou, quem sabe, arrumar um emprego de verdade para descobrir como funciona a vida do trabalhador que acorda às cinco da manhã. Nada mais justo para quem usou o voto alheio como passaporte VIP para o luxo pessoal.
Esse tombo épico nos deixa uma reflexão urgente: enquanto continuarmos tratando a eleição como um circo de promessas fiadas e bajulação barata, seremos nós a pagar a conta do espetáculo. Está na hora de deixar os oportunistas “pastando no seco”. Na hora de votar, esqueça a oratória bonita de véspera de eleição. Procuremos candidatos com histórico limpo, coerência entre o que dizem e o que fazem, compromisso real com a coletividade e, acima de tudo, a maturidade de saber que o cargo público é um dever de servir — e não uma licença para se servir.
Se você identificou algum Tibúrcio rondando a sua região, faça um favor à sua cidade e ao seu país: dê a ele a gloriosa oportunidade de procurar um trabalho honesto. Tibúrcio nunca mais será eleito — e que assim seja! Chega de aceitar sobras e promessas furadas como se fossem joias raras.
“O castigo dos homens de bem que recusam envolver-se na política e exercer a cidadania com discernimento é serem governados pelos malfeitores.” (Platão)
Rosário, 07 de agosto de 2026.
Direitos reservados ao autor:
José Carlos Castro Sanches.
Químico, professor, consultor, comunicador, escritor, cronista, contista, trovador, poeta e produtor cultural.
