Por José Carlos Castro Sanches
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“Amadeus abanava o fogo, / Lindalva fazia o mingau, / Aluízio ficava de longe, / tocando seu berimbau.” Sob as cordas desse berimbau imaginário, a memória de Aluízio Cutrim Serra (in memoriam) ressoa viva. Ele, que foi mestre na arte de ler o mundo e escrever “pasquins”, o grande contador de histórias de São João Batista, no coração do Maranhão, recebe agora o mais doce dos tributos. Pelas mãos de sua filha, Maria da Conceição Serra Araújo, a vida se faz rima no livro “E Foi Assim… Memórias em versos e prosas”, uma obra que honra o legado do prosador que soube imortalizar sua gente.
Conceição, a quinta flor do jardim de Aluízio e Dona Zica — entre os dez irmãos que compunham a prole —, traz no paladar a essência de sua terra. Ela recorda com poesia o “Peixe pescado na hora / feito com cebolinha, sal e limão, / E pra completar o cardápio, / tinha um baita de um pirão.” São sabores que alimentam não apenas o corpo, mas a alma de quem conhece a fartura simples e generosa da baixada.
Após o banquete da memória, o louvor volta-se à matriarca, Maria da Ascensão Figueiredo Serra, a eterna Dona Zica. Em versos de profunda gratidão, a filha canta: “A mamãe, por sua vez, / Trabalhava sem cessar; / Fazia o impossível / Para ajudar os filhos criar.” É a exaltação da força feminina que sustenta o lar e transforma o sacrifício em amor.
O olhar da autora então se derrama sobre o solo natal, em uma ode de devoção: “Maravilha, maravilha meu berço, minha terra natal, terra santa e abençoada que não conheço outra igual”. A roça, generosa mãe, entregava o sustento em cores e formas: o arroz, a mandioca e o feijão; o milho, o maxixe e o quiabo; o jerimum, a vinagreira e o mamão. E no rito sagrado da farinha, a mandioca era descascada, ralada na roda e espremida no tapiti, num bailado laborioso para extrair o excesso d’água e preparar o pão da terra.
Há também o reconhecimento ao saber, encarnado na figura magistral da educadora Maria Luiza Serra Soares. Foi ela quem transformou a sala de sua própria morada na escola municipal, acolhendo as crianças em classes multisseriadas e semeando o futuro. Conceição viaja no tempo: revisita os desfiles de Independência, a Páscoa sagrada, a fé das benzedeiras, o cuidado das parteiras e, em prece, agradece a Deus por cada conquista alcançada.
A obra ainda nos oferece o sopro da história, revelando as origens da Igreja Presbiteriana em Maravilha. O que nasceu como uma semente local estendeu-se pela vastidão da baixada maranhense, um trajeto de fé referenciado com maestria em “O Evangelho em Maravilha”, de autoria de Evandro Cutrim Serra.
O destino, esse tecedor de encontros, fez com que a autora passasse pelo meu torrão natal, Rosário. Também, atuou como supervisora de ensino, cruzando caminhos com minha esposa, Socorro Sanches, que à época era coordenadora pedagógica do Colégio Batista “Daniel de La Touche”, no João Paulo, em nossa São Luís. São vidas que se entrelaçam na educação e na literatura, mantendo acesa a chama das memórias que o tempo não apaga.
São Luís, 27 de abril de 2026.
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José Carlos Castro Sanches. Químico, professor, consultor, comunicador, escritor, cronista, contista, trovador, poeta e promotor cultural.
