Por José Carlos Castro Sanches
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”Se seus planos são para um ano, plante arroz; se são para dez anos, plante árvores; se são para sem anos, eduque as crianças.” — Guan Zhong
Parece que desaprendemos a arte milenar de cultivar com paciência. Na era do imediatismo vertiginoso, a própria existência transformou-se numa sucessão de apressamentos onde até o afeto perece diante da urgência. Suprimiram-se os prelúdios, os afetos e a delicadeza, resguardados apenas para o fulgor efêmero do primeiro olhar. Atualmente, exaure-se o desejo num suspiro mecânico, despede-se com frieza pragmática e cada qual se recolhe à sua solidão utilitária.
Imagine a paciência de plantar a roça para esperar o ciclo do arroz, do milho e do feijão; a lentidão ritualística de transformar a mandioca em farinha; a serenidade de cultivar a cana até vê-la virar açúcar; ou a contemplação do compasso das abelhas no milagre do mel. Já não há tempo para tais processos artesanais — ao menos não até a civilização atentar que algoritmos e telas não alimentam o estômago.
Anthony Hopkins, na lucidez de seus 88 anos, recorda a lição preciosa de seu pai: “Hoje é o amanhã com que eu estava tão preocupado ontem”. Mas nós, tragados pela vertigem do agora, sequer conseguimos alcançar a alvorada seguinte sem antes colapsar em ansiedade.
No Nordeste brasileiro, a transformação segue implacável: o fiel jumento, outrora esteio do lavrador, foi aposentado pelo ronco das motocicletas. O verdor da roça cedeu espaço ao concreto da calçada; a foice calejada virou extensão da tela do celular; e a galinha caipira, criada solta no quintal, foi suplantada pela produção pálida da granja industrial.
O necessitado vegeta à custa das benesses assistencialistas; o trabalhador vê seu sustento devorado por uma sangria tributária sem fim; governantes encastelam-se em palácios; a Justiça cambaleia sob a venalidade; e o parlamento dobra os joelhos em vergonhosa subserviência. A degradação moral deixou de ser um desvio e tornou-se a instituição mais eficiente da pátria.
Se tudo permanecer nesse ritmo de inércia e torpor institucional, marcharemos para o colapso. A juventude, anestesiada por estímulos fugazes e incapaz de planejar além do próximo clique, tornar-se-á obsoleta num país desprovido de soberania alimentar, intelectual e moral. Seremos uma nação de transeuntes hiperconectados e espiritualmente famintos, habitando as ruínas de uma terra que costumava ser promissora.
Para romper esse determinismo trágico e construir um novo horizonte de progresso, tornam-se indispensáveis as seguintes atitudes:
Educação de Longo Prazo: Substituir a recompensa instantânea pelo ensino focado em raciocínio crítico, capacidade analítica e visão intergeracional.
Autonomia e Inovação: Reduzir a asfixia fiscal sobre quem produz, incentivando a modernização do campo e da indústria sem extinguir o saber sustentável.
Reforma Ético-Institucional: Exigir transparência na gestão pública, estimulando a cidadania ativa e reduzindo a dependência estatal.
Resgate do Tempo de Cultivo: Promover uma mudança cultural ao compreender que conquistas sólidas não nascem do imediatismo, mas do investimento contínuo e disciplinado.
”O futuro pertence àqueles que se preparam para ele hoje.” — Malcolm X
São Luís, 17 de agosto de 2026.
Direitos reservados ao autor:
José Carlos Castro Sanches.
Químico, professor, consultor, comunicador, escritor, cronista, contista, trovador, poeta e produtor cultural.
