Por José Carlos Castro Sanches
Site: www.falasanches.com
Vivemos na era da tolerância zero, com a sensibilidade à flor da pele. Com base na percepção desse comportamento quase linear, passei a me questionar sobre algumas atitudes corriqueiras: O que ocorre com as pessoas que não podem ser questionadas? Que não aceitam ideias diferentes das suas? Que sempre recebem qualquer comentário ou sugestão como afronta ou ofensa e reagem, normalmente, com agressividade diante dessas situações? O que se esconde por trás dessa facilidade de se sentir ofendido e de manter a pólvora como estopim para reagir a qualquer movimento contrário ao que se pensa?
No fundo, a rigidez e a suscetibilidade extrema não revelam força, mas uma profunda fragilidade interna. Quem se arma contra o contraditório costuma carregar um ego feito de vidro, disfarçado de ferro. Quando faltam a segurança e o autoconhecimento, qualquer brisa de discordância soa como um vendaval ameaçador. A agressividade torna-se, então, um escudo para proteger um território íntimo que se sente constantemente invadido. Falta-nos, muitas vezes, a sabedoria de acolher o outro como um espelho que nos ajuda a enxergar nossas próprias sombras.
“A clareza de visão só se atinge quando olhamos para dentro do nosso próprio coração. Quem olha para fora, sonha; quem olha para dentro, desperta.” (Carl Jung)
Essa mesma muralha defensiva que rejeita o diálogo frequentemente se manifesta sob outra veste no cotidiano: a frieza. Por que escolher a indiferença, o desinteresse e o ego disfarçado de desapego? Por que tantos escolhem o vácuo como estratégia e ainda acham isso bonito, maduro ou interessante? Em tempos nos quais a atenção virou artigo de luxo e o afeto declarado vira motivo de chacota, corremos o risco de desaprender a arte de conviver.
Na verdade, o amor e a convivência humana deveriam ser multiplicação, nunca subtração. Deveria ser o caminhar de mãos dadas, sem disputar quem machuca mais, quem sente menos ou quem demonstra menos. Convivência é troca, cuidado e presença, e não essa falta de consideração que insiste em se alastrar.
É preciso compreender que, por mais que tentemos iluminar certas relações, algumas pessoas preferem a sombra; por mais que as reguemos, insistem em continuar secas. O silêncio diante de um bom-dia carinhoso ou a indiferença frente à nossa abertura não definem o nosso valor, mas sim o limite do outro. Não somos intensos demais; por vezes, apenas esbarramos em corações rasos demais para nos alcançar.
“O que me preocupa não é o grito dos maus. É o silêncio dos bons.” (Martin Luther King Jr.)
Não romantizemos o que é difícil por vaidade ou capricho. Nada supera a leveza de estar entre pessoas atenciosas, disponíveis e recíprocas — aquelas que respondem porque desejam conversar, que nos procuram no meio do dia apenas porque se lembraram de nós e que não fazem do afeto um jogo de tabuleiro. O afeto verdadeiro traz paz, esclarece e nos inclui. Quando aprendemos a flexibilizar nossas certezas e a valorizar quem soma, a vida flui mais leve, organizada e feliz.
Ao longo dessa reflexão, extraí lições profundas que se aplicam a todos nós. Compreendi que o questionamento deve ser sempre recebido como um convite, pois acolher ideias diferentes não diminui quem somos, mas expande nossos horizontes e nos liberta da incômoda prisão do orgulho. Percebi também que a reciprocidade precisa ser o nosso norte definitivo: relações verdadeiramente saudáveis nutrem-se de trocas voluntárias, sem espaço para jogos de poder, e insistir onde há apenas indiferença é, no fim das contas, desperdiçar a nossa própria luz. Por fim, passei a adotar a paz como o único termômetro possível para a vida, tendo a certeza de que o afeto real e as boas conexões nunca geram ansiedade ou dúvidas constantes; pelo contrário, eles sempre nos trazem clareza, sossego e o mais sincero acolhimento.
São Luís, 14 de julho de 2026.
Direitos reservados ao autor: José Carlos Castro Sanches.
Químico, professor, consultor, comunicador, escritor, cronista, contista, trovador, poeta e produtor cultural.
