Por José Carlos Castro Sanches
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“Aqueles que dançavam eram vistos como loucos pelos que não conseguiam ouvir a música.” (Friedrich Nietzsche)
Escrever, para muitos, parece um ato de ordenação do mundo, uma tentativa desesperada de conferir sentido ao caos que habita o pensamento humano. Contudo, há uma linha tênue, quase invisível, que separa o que convencionamos chamar de lucidez daquela que rotulamos como loucura. Como bem observou o mestre ao aprendiz, a lucidez e a loucura estão separadas apenas por um triz. É nesse espaço exíguo que reside a verdadeira potência da criação.
O que define um escritor notável não é apenas a quantidade de palavras que verte no papel, mas a sua capacidade criativa, a sensibilidade aguçada, empatia luminosa e essa centelha de sabedoria que muitos chamam de inspiração divina. O louco, em sua vertigem, transforma a aspereza da pedra em poesia, extraindo de uma suposta idiossincrasia versos que desafiam a lógica. Já o lúcido, por vezes, enreda-se nas próprias amarras da utopia, limitado pela miopia de um olhar que se recusa a ver além do óbvio.
Erasmo de Roterdã, em seu clássico Elogio da Loucura, já nos advertia sobre essa ironia: “A loucura é a única coisa que pode dar aos homens o prazer de viver”. E é essa liberdade que transborda, como o canto do concriz ou a vivacidade da pétala de uma coroa-da-imperatriz. A beleza da insanidade, se assim podemos chamá-la, é, na verdade, a própria liberdade em estado bruto, a capacidade de ver o mundo sem os filtros impostos pela convenção social.
Enquanto a lucidez, muitas vezes, nos torna prisioneiros de um sistema, a loucura engenhosa rompe diques. Como afirmou o brilhante psiquiatra Carl Jung: “A coisa mais aterrorizante é aceitar-se a si mesmo completamente”. Os loucos, ilimitados em suas criações, vertem o amor de seus corações com uma autenticidade que assusta os lúcidos afortunados, que, por sua vez, se perdem no cálice da heresia e nos sonhos que não ousam realizar.
Talvez a lucidez não seja nada mais do que uma loucura domada, e a loucura, a lucidez em sua forma mais pura e desmedida. Como sugeriu o escritor Fernando Pessoa: “A minha loucura é a minha própria lucidez”. Devemos, pois, aprender a transitar entre esses dois estados. Afinal, a vida é a arte de encontrar a beleza onde a razão insiste em ver apenas o erro, e transformar cada momento em um verso indelével da nossa própria existência.
“A liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome.” (Clarice Lispector)
São Luís, 25 de maio de 2026.
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José Carlos Castro Sanches.
Químico, professor, consultor, comunicador, escritor, cronista, trovador, poeta e produtor cultural.
