Por José Carlos Castro Sanches
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Há dias em que a rotina desanda e resolve sair do compasso. É quando o verso, cansado da mesmice, se vira do avesso e explode em mil possibilidades. A sinfonia que embalava o cotidiano perde o maestro, vira banda de rua e convoca todo mundo para a festa. Lá dentro, um vulcão que dormia há tempos desperta, eclode, e decide que é tempo de ser lava e luz.
O sangue não obedece mais ao relógio. Em pulsar selvagem, agita-se nas veias como rio que redescobre o próprio leito. A pressão já não oprime: dita o momento, marca o ritmo, anuncia que algo novo está nascendo. O corpo, antes insano de tanta espera, agora recita. Declama para as paredes, para o vento, para si. E a mente, sábia, aprende a pacificar o vento em vez de brigar com a tempestade.
Então o pensamento se entoca, sim, mas não para fugir. Entoca-se para cavar mais fundo, até onde a escuridão desiste e vira luz. É a alma que o som provoca, que a música chama pelo nome. Ela recolhe o que seduz, guarda o que vale, devolve ao mundo só o que transborda.
Lá fora, o sol aceita o convite. Redesenha seu brilho com traço de artista que não tem pressa. O relógio, compassado e lento, entende que tempo bom não se mede, se vive. Nos trilhos do peito, o trem que havia descarrilhado reencontra o trilho com um estalo de alegria. A cabeça, leve, liberta o tormento na estação seguinte.
O corpo ressurge bendito, batizado pela própria coragem. A consciência suspira, mas agora é suspiro de quem chegou em casa depois de longa viagem. A vida rompe o limite que ela mesma inventou. E o mundo, sutilmente, sem alarde, volta a girar no eixo certo.
É quando a confiança no outro inspira de novo. Tem cheiro de café passado na hora. O trovador, que pensava ter perdido a lira, estende a mão e a reencontra ali, encostada na parede do coração. A verve do poeta, que parecia de férias, calça os sapatos e volta a caminhar. Amor e afeto param de disputar espaço: se fundem, se reconhecem, se aceitam.
A luz da inspiração escorre como mel sobre a página. Dores antigas, dessas que a gente coleciona sem querer, se esvaem como neblina ao meio-dia. Porque a esperança tem uma mania bonita: ela não morre. Finge que sim, só para nos surpreender depois.
E ela surpreende. Sempre.
Renasce na próxima linha.
São Luís, 19 de maio de 2026_
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José Carlos Castro Sanches.
Químico, professor, consultor, comunicador, escritor, cronista, contista, trovador, poeta e promotor cultural.
