Por José Carlos Castro Sanches
Site: www.falasanches.com
“A infraestrutura é o esqueleto sobre o qual a economia e a dignidade humana se sustentam.” (Milton Santos)
Nas constantes viagens de São Luís a Rosário para acompanhar meu pai, José Firmino Sanches — comerciante tradicional na cidade que, pela idade avançada, exige cuidados dedicados —, tenho testemunhado de perto o drama diário no trecho do Campo de Perizes. Sob os olhos críticos deste cronista, a pista esburacada converteu-se em uma verdadeira armadilha: crateras profundas resultam em pneus estourados, rodas amassadas e prejuízos financeiros contínuos. Mais grave do que o dano material, contudo, é o perigo iminente de tragédias, em que desvios bruscos e perdas de controle colocam em risco constante a vida dos motoristas. A olhos vistos, a rodovia já não exige meros tapa-buracos, mas uma reconstrução definitiva: um novo asfaltamento sobre base sólida, capaz de suportar o tráfego pesado e as intempéries da região.
Além do abandono na pista, há uma condição peculiar percebida por poucos. Às vezes ainda é dia quando, trafegando pela BR-135, me aproximo da entrada para a minha cidade natal, na cabeceira norte do viaduto de Bacabeira. É inevitável não sentir um profundo lamento pelo desleixo, pela falta de zelo na execução do projeto e pelo desnível improvisado existente naquela interseção. É justamente nesse ponto que, ao chegar em Bacabeira com destino a Rosário, aos demais municípios do Munim e aos estados vizinhos, o motorista precisa acessar a BR-402.
Trata-se de um gargalo inaceitável para uma via que não apenas dá destino a Rosário, Presidente Juscelino, Axixá, Morros e Humberto de Campos, como também serve de artéria principal para o ecossistema turístico dos Lençóis Maranhenses — passando por Santo Amaro, Barreirinhas, Paulino Neves e Tutóia. Além disso, a rota conecta o tráfego interestadual a cartões-postais do Piauí, como o Delta do Parnaíba e Barra Grande, e do Ceará, como Jericoacoara, Camocim e a capital Fortaleza.
Era de se esperar um acesso significativamente mais decente, dotado de boa sinalização vertical e horizontal, pista perfeitamente nivelada e, especialmente à noite, uma iluminação adequada que permitisse identificar com clareza aquele entroncamento vital. Experimente viajar durante a noite e tente encontrar o acesso para Rosário: se vacilar por um segundo, só perceberá a conversão quando já tiver cruzado o viaduto, pois nada no local orienta ou alerta o condutor de que ali está o verdadeiro portal de acesso para a região do Itapecuru e Munim.
Diante do risco constante de colisões frontais, tombamentos e saídas de pista, faz-se urgente que o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT), o Ministério dos Transportes e as secretarias estaduais e municipais avaliem com severidade esta situação. A ausência de elementos básicos de engenharia viária — como iluminação em LED, defensas metálicas, pintura retrorrefletiva e faixas de desaceleração apropriadas — transforma um ponto estratégico de escoamento e turismo em uma armadilha cotidiana para milhares de trabalhadores e famílias.
“A negligência na prevenção de acidentes não é apenas uma falha técnica, mas uma omissão ética diante do valor irrevogável da vida.” (Paul Virilio)
Chego a pensar que a solução atualmente implantada não passou pelo crivo rigoroso da engenharia de tráfego, tampouco faz-se visível aos prefeitos, vereadores e autoridades das cidades afetadas. O descaso omisso transforma a infraestrutura pública em um retrato de improviso. Por isso, conclamo a atenção de todos os órgãos competentes para que intervenham com soluções pautadas nos melhores conceitos de segurança viária.
Garantir um trânsito seguro não é um privilégio ou concessão política, mas uma obrigação constitucional e um imperativo de engenharia. Rodovias projetadas sem a devida observância técnica custam vidas, sobrecarregam o sistema de saúde e sufocam o desenvolvimento regional. A segurança no trânsito deve ser tratada como política pública prioritária e ciência exata, onde cada curva, sinalização e nível de asfalto são planejados para mitigar o erro humano, e nunca para potencializá-lo.
A principal lição que se extrai desta narrativa é que o progresso de uma região não se mede apenas pela extensão de seu asfalto, mas pelo cuidado com que se preservam as vidas que por ele transitam. O desenvolvimento turístico e econômico do Maranhão exige respeito aos seus cidadãos e visitantes — e esse respeito começa na precisão técnica dos seus caminhos.
“O verdadeiro progresso é aquele que coloca a tecnologia e a técnica a serviço da proteção e da elevação do ser humano.” (Norbert Wiener)
São Luís, 02 de agosto de 2026.
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José Carlos Castro Sanches.
Químico, professor, consultor, comunicador, escritor, cronista, contista, trovador, poeta e produtor cultural.
