1236657.1677ed0.a1d49e5be45046c98447636dfa3d9e34
Oferece a você a oportunidade de leitura e reflexão sobre textos repletos de exemplos, experiências e lições que irão transformar a sua vida.

ABAPORU NO LIXO

Por José Carlos Castro Sanches

Site: www.falasanches.com

Em uma das escolas onde atuei como professor, organizou-se certa vez uma pulsante feira de arte e cultura. Guiados pelo zelo dos mestres, os alunos desvelavam seus dons artísticos em uma eclosão de cores e formas: pinturas, artesanatos, maquetes e desenhos. Durante o evento, os jovens revezavam-se entusiasmados nas apresentações, revelando talentos principiantes que encantavam a quem estivesse disposto a ver. A feira foi um verdadeiro sucesso.

Contudo, a efemeridade das coisas humanas costuma guardar sombras dolorosas. Poucos dias depois, deparei-me com uma triste pilha de materiais descartados. O que antes reluzia como arte em profusão, agora jazia entregue ao esquecimento, misturado ao lixo comum. Nem mesmo os jovens autores foram incentivados a preservar suas criações; quase tudo se perdera.

Incomodado com tamanho desleixo, aproximei-me daquele monte de descartes, sensibilizado diante de tanta beleza subjugada. Se espaço me coubesse, teria recolhido uma imponente maquete e diversas peças artesanais minuciosamente trabalhadas. Todavia, meus olhos foram magneticamente atraídos por um quadro específico. Pintado à mão, sem assinatura de autor, ostentava uma moldura já empenada sob o peso dos escombros. Para mim, tratava-se de um tesouro de valor inestimável.

Era uma releitura do Abaporu de Tarsila do Amaral.

Incapaz de me conter, resgatei a peça daquele sepulcro de memórias e a levei à oficina de emolduração que costumo frequentar. Hoje, a obra reabilitada repousa com altivez na parede do meu escritório, onde compartilha espaço com diplomas, livros e outros quadros.

Guardamos no peito o encanto pelas coisas simples e profundas. Move-me, desde então, um desejo poético e genuíno: o de descobrir quem foi o jovem artista anônimo que pincelou aquela réplica preciosa, para que ele possa, finalmente, assinar a sua obra.

Ou será — pergunto-me em devaneio lírico — que foi a própria Tarsila do Amaral quem, atravessando as brumas do tempo e do inconsciente, deixou a sua obra-prima naquele recanto para me presentear?

Seja qual for a resposta, guardo no peito a alegria singela de haver salvação para a arte. Agora posso dizer, com orgulho e afeto, que possuo o meu próprio Abaporu. Se é original ou réplica… ah, isso pouco importa! Para o olhar de quem ama a arte, tudo o que se resgata do esquecimento torna-se eterno.

Para compreender o mistério e a magnitude da imagem do homem de pés descalços e desproporcionais fincados na terra — como aquela resgatada entre as sombras do descartável —, é preciso retornar a janeiro de 1928. Foi no calor criativo do Modernismo que Tarsila do Amaral (1886–1973) — filha das terras de Capivari, educada sob os refinados ares de Paris — deu vida àquela que se tornaria a obra de arte mais emblemática e valiosa da história brasileira: o Abaporu.

Pintado a óleo sobre tela (85 x 73 cm) como um presente de aniversário para seu então marido, o escritor Oswald de Andrade, o quadro provocou espanto e fascínio imediatos. Diante daquela figura solitária sob o sol escaldante de traços tropicais e ao lado de um cacto estilizado, Oswald exclamou tratar-se do “homem da terra”. Para batizá-lo, recorreram ao poeta Raul Bopp e ao dicionário tupi-guarani: Aba (homem) e Poru (que come). Nascia o Abaporu — “o homem que come carne humana”.

A tela foi o estopim lírico e visual do Movimento Antropofágico. Inspirou o célebre Manifesto Antropófago, convocando os artistas brasileiros a deglutir a cultura europeia e as vanguardas estrangeiras, digeri-las e retransformá-las em uma arte genuinamente nativa. Com sua paleta viva de azul, verde e amarelo em alusão estilizada à nossa bandeira, a obra contrastava uma cabeça minúscula — a desvalorização do intelectualismo estéril — a pés e mãos gigantescos, símbolos da profunda conexão física com o trabalho braçal e o solo pátrio.

Marcando a transição da fase Pau-Brasil para a fase Antropofágica, Tarsila revelou que aquela imagem derivava do seu inconsciente, resgatando as memórias de infância nas fazendas paulistas, onde as sombras alongadas das luminárias projetavam figuras agigantadas nas paredes.

Após uma jornada por coleções particulares, a tela foi arrematada em 1995 na Christie’s de Nova York por US$ 1,4 milhão pelo colecionador argentino Eduardo Costantini. Hoje, habitando o acervo permanente do MALBA (Museu de Arte Latino-Americana de Buenos Aires), a obra é avaliada em dezenas de milhões de dólares, mas permanece, em essência, com um valor cultural inestimável — e uma eterna saudade no coração da arte brasileira.

São Luís, 25 de maio de 2024.

Todos os direitos reservados ao autor:

José Carlos Castro Sanches.

Sobre o Autor:

É Consultor de SSMA da Business Partners Serviços Empresariais – BPSE. Químico, professor, consultor, comunicador, escritor, cronista, contista, trovador, poeta e produtor cultural. Membro Efetivo do PEN Clube do Brasil, da Academia Luminense de Letras, da Academia Maranhense de Trovas, da Academia Literária do Maranhão, da Academia Maranhense de Ciências e Belas Artes, da Academia Rosariense de Letras, Artes e Ciências, da Sociedade de Cultura Latina do Estado do Maranhão, da Federação das Academias de Letras do Maranhão e da União Brasileira de Escritores. Membro correspondente da Academia Arariense de Letras Artes, Ciências da Academia Vianense de Letras, da Academia Icatuense de Letras, da Academia de Ciências, Letras e Artes de Presidente Vargas. Tem a literatura como hobby. Para Sanches, escrever é um ato de liberdade. 

Obras Publicadas:

Tríade Sancheana – Colheita Peregrina, Tenho Pressa, A Jangada Passou; Trilogia da Vida: No Fluir das Horas, Gotas de Esperança e A Vida é um Sopro!; Pérolas da Jujuba com o Vovô, Pétalas ao Vento, Borboletas & Colibris (em parceria); Das coisas que vivi na serra gaúcha, Me Leva na mala e Divagando na Fantasia em Orlando; O Voo da Poesia; TROVOAR – Trovas para Inspirar e Sonhar; Momentos do Cotidiano e Guilhermina: Do Barro às Estrelas. Participa de diversas antologias nacionais e internacionais.

NOTA DE DIREITOS AUTORAIS: Esta obra é original do autor José Carlos Castro Sanches e está licenciada com a licença JCS25.05.2024. Você pode copiar, distribuir, exibir e executar, desde que seja dado o devido crédito ao autor original. Não pode fazer uso comercial desta obra nem criar obras derivadas. Esta medida fez-se necessária devido ao plágio de algumas crônicas do autor por terceiros na tentativa de assumir a autoria sem a devida permissão — contrariando o direito à propriedade intelectual amparado pela Lei nº 9.610/98, que confere ao autor os direitos patrimoniais e morais sobre sua obra.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *