Por José Carlos Castro Sanches
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“Aquele que tem um ‘porquê’ pelo qual viver, pode suportar quase qualquer ‘como’.” (Friedrich Nietzsche)
A quem devemos agradar a contragosto? Quem de fato merece o nosso sacrifício diário? Essa é a dúvida incansável que me castiga e consome. Deveras, ainda não encontrei uma resposta convincente; talvez a força que me faz questionar esse fluxo seja a busca pelo “caos necessário”, tão bem delineado na crítica ao “Último Homem” de Nietzsche.
Nesta jornada, enquanto viajava para Rosário em uma van com todos os assentos ocupados, vi-me improvisado, sentado entre os bancos, num modesto degrau do piso. Ao meu redor, o mundo efervescia em miudezas: o falatório alto de quem expunha a vida ao celular a ponto de incomodar o silêncio alheio, a tosse ritmada de outro passageiro, o arrastar lento diante de um congestionamento quilométrico e o interminável pinga-pinga dos passageiros ao longo da BR-135. Em meio ao ruído e à imobilidade, eu me perguntava: o que estou fazendo aqui? E, num instante de empatia e curiosidade, imaginava também o que cada um daqueles passageiros responderia ao mesmo questionamento.
“A vida sem reflexão não vale a pena ser vivida.” (Sócrates)
Há momentos na existência em que os rumos se enevoam e não sabemos claramente o que fazemos — tampouco o porquê de o fazermos. É nessa fresta do cotidiano que paira a sombra densa do existencialismo. Para que viemos? Para onde verdadeiramente vamos? Entre o aperto do transporte e a poeira da estrada, percebo que o percurso físico é apenas um espelho da própria caminhada humana: perambulamos por rotas incertas, dividindo o espaço com estranhos, suportando incômodos passageiros para alcançar um destino que, tantas vezes, só ganha sentido quando paramos para contemplá-lo. O desconforto da viagem nos lembra de que não somos meros espectadores do tempo, mas seres que buscam criar significado no próprio ato de atravessar o caos.
“O homem está condenado a ser livre; porque, uma vez lançado ao mundo, é responsável por tudo quanto faz.” (Jean-Paul Sartre)
A travessia, afinal, não é em vão. Cada sobressalto na estrada, cada pausa forçada e cada rosto anônimo ao nosso lado constituem a matéria-prima do nosso amadurecimento. Não precisamos ter todas as respostas para as grandes perguntas da vida neste exato momento; basta que tenhamos a coragem de continuar caminhando e a sensibilidade de transformar a incerteza em aprendizado. A rota pode ser desconfortável, mas o destino final reside na consciência de quem se permitiu sentir, refletir e viver profundamente cada quilômetro.
Agora cheguei a Rosário — graças a Deus. Eu não imaginava o que me esperava. A vida nos prega surpresas!
“Não é o que nos acontece que importa, mas como reagimos ao que nos acontece.” (Epicteto)
Rosário, 04 de setembro de 2026.
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José Carlos Castro Sanches.
Químico, professor, consultor, comunicador, escritor, cronista, contista, trovador, poeta e produtor cultural.

