Por José Carlos Castro Sanches
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“O homem não é nada mais do que aquilo que faz de si mesmo.” (Jean-Paul Sartre)
Atendendo ao desafio do amigo Robson Coral — leitor voraz e crítico atento —, que após ler “A FORÇA DA TRANSFORMAÇÃO” (Quebrando Paradigmas) me pediu os bastidores da jornada, fui em busca de respostas onde elas costumam morar. Na calada da madrugada, entre o sonho e o despertar, encontrei-me novamente com Amadi Djavu. Foi no silêncio dessa dimensão suspensa que retomamos nossa conversa e colhi os detalhes para alinhavar as linhas que se seguem.
Amadi Djavu não venceu as adversidades num passe de mágica; tudo foi conquistado com muita disciplina, determinação, foco e resiliência. Vencer o vício é uma tarefa hercúlea que requer algo além da vontade — que jamais poderia ser uma jornada solitária. O resgate começou na humildade de aceitar a mão estendida de um centro de acolhimento comunitário. As primeiras semanas foram tempestades de abstinência, onde o corpo gritava e a mente vagava por abismos de desespero. O tratamento exigiu terapia cognitiva contínua, grupos de apoio diários e uma severa reestruturação da rotina. Houve recaídas — pequenos tropeços que pareciam ruir o castelo recém-construído —, mas cada insucesso foi transformado em aprendizado reflexivo. Amadi compreendeu que a sobriedade não era um destino, mas uma escolha consciente renovada a cada amanhecer, até que o desejo perdeu a voz e a liberdade se tornou seu novo estado de espírito.
“A maior glória de viver não está em nunca cair, mas em nos levantarmos toda vez que caímos.” (Nelson Mandela)
A mudança de hábito, a higiene pessoal, os vestuários adequados, os sapatos limpos e o trato da aparência — cabelo alinhado, barba feita — compõem um processo intimamente ligado à valorização da própria imagem e à autoestima. Amadi iniciou essa renovação pelos rituais mais simples: o banho diário como um batismo de purificação, o resgate do cuidado com os dentes e o corte do cabelo que antes ocultava seu rosto do mundo. Ao vestir roupas limpas, ainda que simples, ele começou a enxergar no espelho o reflexo de quem desejava ser, e não as sombras do que fora. Cuidou da alimentação, recuperou o peso saudável e adotou caminhadas matinais para desacelerar a ansiedade. Cada pequeno gesto de autocuidado funcionava como um tijolo na reconstrução de sua dignidade.
“O verdadeiro homem mede-se pela forma como enfrenta as dificuldades.” (Machado de Assis)
Por fim, vieram as batalhas travadas para prosperar partindo da condição inicial de pobreza, dependência química, condição de andarilho e maltrapilho — sem alimento, sem lenço e sem documento. Como homem negro e estrangeiro em uma terra desconhecida, o idioma e o preconceito ergueram barreiras que pareciam intransponíveis. Mas Amadi começou varrendo o chão de uma pequena marcenaria em troca de abrigo e aprendizado. Aprendeu a língua local ouvindo o rádio à noite e praticando cada palavra com disciplina militar. Logo, dominou a arte da carpintaria, passou de ajudante a artesão e começou a poupar cada centavo com rigor extremo. Investiu seus primeiros ganhos em cursos de gestão e finanças. Com o tempo, abriu seu próprio atelier de móveis sustentáveis, contratou outros imigrantes e transformou o pequeno negócio em uma empresa de grande porte. A prosperidade financeira seguiu-se à evolução pessoal, culminando na aquisição de sua casa própria e na criação de um fundo social para acolher pessoas em situação de rua.
“Se vi mais longe, foi por estar sobre os ombros de gigantes.” (Isaac Newton)
Sabendo exatamente onde queria chegar, Amadi Djavu provou que o destino não é uma questão de sorte, mas de escolha. O grande salto final de sua jornada não esteve na riqueza material acumulada, mas no propósito que encontrou ao transformar seu ateliê na primeira escola profissionalizante gerida por ex-dependentes químicos e refugiados da região. A verdadeira vitória de Amadi não foi apenas ter saído do abismo, mas ter construído uma ponte definitiva sobre ele, mostrando ao mundo que a maior riqueza de um homem é a sua capacidade de renascer e servir de luz para o caminho do outro.
São Luís, 24 de agosto de 2026.
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José Carlos Castro Sanches.
Químico, professor, consultor, comunicador, escritor, cronista, contista, trovador, poeta e produtor cultural.
