Por José Carlos Castro Sanches
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“Passei a minha vida tentando corrigir os erros que cometi na minha ânsia de acertar. Ao tentar corrigir um erro, eu cometia outro. Sou uma culpada inocente.” (Clarice Lispector)
Quantas vezes a tentativa de solucionar um problema resulta num desastre ainda maior? No anseio precipitado de corrigir a rota, tropeçamos na urgência e transformamos um pequeno sobressalto em uma tempestade perfeita. O desvio de um buraco ao dirigir provoca uma batida em outro veículo, o uso de um medicamento sem prescrição causa um efeito colateral avassalador, uma mentira contada para encobrir uma pequena falha desmorona em uma teia incontrolável de enganos, e uma ação impensada gera mágoas e cicatrizes que o tempo custa a apagar.
É o eterno e amargo paradoxo da vida cotidiana: no afã de consertar, destruímos; na pressa de remendar, rasgamos o tecido por inteiro.
A sabedoria popular herdou dos poetas e da literatura uma lição magistral em forma de metáfora: «a emenda ficou pior que o soneto». A origem dessa expressão nos remete ao rigor das formas clássicas. O soneto — essa arquitetura poética perfeita de catorze versos, onde métrica, ritmo e rima dançam em perfeita sintonia — exige maestria e sensibilidade. Quando um poeta perfeccionista, incomodado com um único verso desalinhado, tenta fazer uma “emenda” rápida e sem o devido cuidado, o resultado muitas vezes é catastrófico. A tentativa de ajuste quebra a harmonia da estrofe, estraga o ritmo e desmorona a beleza do conjunto. O remendo, por fim, grita mais alto que a imperfeição original.
Trazendo essa poesia trágica para a nossa caminhada, percebe-se que somos todos, em algum momento, poetas apressados de nossa própria história. Quantas ‘emendas’ desesperadas colocamos sobre as imperfeições da vida diária?
Na convivência humana, uma desculpa desastrosa e impensada consegue ferir mais do que a gafe inicial que motivou o pedido de perdão.
Nos afazeres do lar ou na técnica, o manuseio afobado de uma peça quebrada costuma estragá-la definitivamente.
Nas decisões da vida pública e social, a criação de regras e burocracias sem reflexão para contornar um problema pontual acaba por engessar toda a estrutura.
A vida não tolera o verniz da pressa nem a ilusão das soluções mágicas. Cada gesto nosso exige a temperança e o zelo do verdadeiro artesão das palavras.
Seria a emenda pior que o soneto?
Conserto a rima e perco toda a métrica,
Apago a luz, acendo a escuridão,
Corrijo o verso e mudo a sua estética,
Escolho a palavra fria e sem paixão.
Escrevo um verso cheio de ilusão,
Com nobre amor à pura poesia,
Que traga no seu peito a emoção,
E sob a luz transborde a harmonia.
A emenda é bem pior do que o soneto,
Pois o erro do homem é inevitável;
No papel a mancha ganha o tom mais preto.
Tornando este remendo um mau projeto,
O gesto desta pressa é inaceitável,
Que o verso nunca perca o seu afeto.
Que lições aprendidas podemos extrair desta reflexão para aplicação na vida cotidiana?
Pausa e Discernimento: Nem toda falha exige uma reação imediata. Antes de tentar reparar um erro, é preciso respirar e avaliar se a nossa intervenção ajudará ou aumentará o dano.
A Aceitação da Imperfeição: Às vezes, um pequeno verso desalinhado é melhor do que um remendo grotesco. Aprender a conviver com pequenas imperfeições é parte da maturidade humana.
Humildade e Sinceridade: Diante de uma falha, a honestidade nua e crua é sempre preferível a uma teia elaborada de desculpas e remendos artificiais.
O Cuidado do Poeta: Assim como o poeta precisa dominar a arte da estrutura antes de alterar seus versos, nós devemos agir com sabedoria, calma e consciência antes de tentar consertar o que a vida nos apresenta.
“A gente não aprende com o erro. A gente aprende com a correção do erro.” (Mario Sergio Cortella)
Rosário, 16 de outubro de 2026.
Direitos reservados ao autor: José Carlos Castro Sanches.
Químico, professor, consultor, comunicador, escritor, cronista, contista, trovador, poeta e produtor cultural.
