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Oferece a você a oportunidade de leitura e reflexão sobre textos repletos de exemplos, experiências e lições que irão transformar a sua vida.

COBRA TRAIÇOEIRA (A Arte da Falsa Camuflagem)

Por José Carlos Castro Sanches

Site: www.falasanches.com

“A política é a arte de procurar problemas, encontrá-los por toda parte, diagnosticá-los incorretamente e aplicar os remédios errados.” (Groucho Marx)

A cobra traiçoeira não avisa quando se aproxima; ela rasteja nas sombras, estuda as vulnerabilidades da vítima e usa de uma camuflagem perfeita para se confundir com a paisagem e parecer inofensiva. Assim como o político demagogo, que veste a pele de benfeitor e se molda ao discurso do povo para passar despercebido, a serpente aguarda pacientemente o momento da distração. Ambas as figuras possuem a mesma essência: sorriem enquanto medem o pescoço da presa, prontas para desferir o bote letal assim que o cidadão desaviosado deposita nelas a sua total confiança.

Severino de Jesus, nascido no miolo do agreste pernambucano, aprendeu desde pequeno que o trabalho pesado calejava as mãos, mas a conversa fiada alimentava o bucho. Sem um dia sequer de banco de escola, Severino trazia da nascença o dom raro de vender neblina em garrafa e convencer matuto de que urubu era pomba da paz. Era, como dizia o povo das ribanceiras, um verdadeiro vendedor de ilusões: tirava a rabiola do bicho e o fazia marchar sorrindo.

Na juventude, enquanto o povo pegava no pesado sob o sol esturricante, Severino descobriu o mapa da mina. Integrou-se aos sindicatos, acampou em invasões de terra, inflamou greves e virou especialista em perturbar a ordem pública. Sempre trajava o olhar compadecido de protetor dos fracos e oprimidos, embora, nos bastidores, jogasse dados com os poderosos e negociasse trégua por moedas de ouro. Descobriu cedo a grande verdade do meio: o político de estimação é como a cobra traiçoeira, que se confunde com a folha seca do caminho — parece inofensiva e imóvel a seus pés, mas basta o cidadão dar o passo de confiança para ouvir o estalo do bote.

“O castigo dos homens de bem que recusam envolver-se na política é serem governados pelos maus.” (Platão)

Anos se passaram e Severino alçou voos mais altos. Com muita lábia e zero compromisso com a ética, escalou os degraus da vida pública até alcançar o topo: tornou-se Presidente de Brasilis, uma terra sem dono, sem justiça e com uma atração irresistível pelo dinheiro alheio. No poder, as promessas eleitorais seguiam o mesmo roteiro farsesco. A cada campanha, ressurgiam as velhas e mofadas juras de saúde, educação e fartura, seguidas por três mandatos de puro desmando, corrupção e desdém pelas necessidades do povo. Afinal, a retórica do rastejante é perfeita: troca de pele a cada eleição, parece renovado, mas mantém as mesmas presas afiadas.

Na véspera do pleito que se aproximava, o ambiente era de ressaca popular. Foi quando o velho Tio Mané, um eleitor das antigas que havia votado em Severino desde os tempos de comício em cima de caminhão pau-de-arara, sentou-se na calçada com o compadre para coçar o queixo e balançar a cabeça. O ‘cumpade’, percebendo o esgotamento de Mané diante das mentiras acumuladas, deu-lhe um conselho certeiro: “Ô Tio Mané, tome tento e mude de lado! Cuidado com a folha seca, pois ela já estalou demais no nosso calcanhar. Severino teve três mandatos para mostrar a que veio e só deixou rastro de veneno. Agora é a nossa vez de dar o bote na urna e dar a resposta que esse encantador de ingênuos merece!”

No fim das contas, a natureza nos ensina que tanto a cobra quanto o político vivem da arte do engano e do bote certeiro sobre os incautos. A grande lição aprendida nas veredas da vida e nos corredores do poder é simples: quem caminha pela mata sem olhar onde pisa acaba envenenado pela própria ingenuidade; e o eleitor que se deixa encantar pelo assobio da serpente na urna descobre, tarde demais, que o veneno cobrado no voto cura a sede com peçonha.

“Em política, a comunhão de ódios quase sempre forma a base das amizades.” (Alexis de Tocqueville)

São Luís, 19 de outubro de 2026.

Direitos reservados ao autor: José Carlos Castro Sanches.

Químico, professor, consultor, comunicador, escritor, cronista, contista, trovador, poeta e produtor cultural.

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