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Oferece a você a oportunidade de leitura e reflexão sobre textos repletos de exemplos, experiências e lições que irão transformar a sua vida.

CICLO DO CUIDADO: O ABRAÇO QUE TRANSCENDE O TEMPO 

Por José Carlos Castro Sanches 

Site: www.falasanches.com

“Honra teu pai e tua mãe, para que se prolonguem os teus dias na terra.” (Êxodo 20:12)

Era tarde de 22 de maio, Dia do Abraço. Em São Luís, eu me preparava para ir a Rosário passar a noite com meu pai. Somos oito filhos e cada um tem o seu dia reservado para acompanhá-lo; o meu, religiosamente, é às sextas-feiras. Veio, contudo, uma tempestade impetuosa que derrubou telhados na Ilha do Amor. Tive dúvidas se deveria viajar naquelas condições. Tentei o apoio de uma irmã para me substituir, mas por motivo justo não foi possível. Às 17h, um genro me levou ao terminal de vans do São Cristovão. Esperei por uma hora, peguei um transporte até Bacabeira, aguardei mais uma hora por outro e cheguei em Rosário às 20h30. Fui recebido à porta com um grande abraço da minha mãe, que disse: “Hoje é o Dia do Abraço; li a crônica que você escreveu”.

“O amor não é algo que se encontra, é algo que se constrói.” (Augusto Cury)

Jantei, tomei banho, vesti o pijama e me preparei para passar a noite com o meu pai. Nada foi combinado, mas, na hora de dormir, percebemos uma coincidência singela: estávamos com os calções azul-escuros e as camisas azul-claras de pijama, vestindo as mesmas cores. Eu, numa cama; o meu pai e a minha mãe, cada um na sua. Éramos três naquele quarto, enquanto a noite passava, entre um cochilo e outro. Levantamo-nos às 6h da manhã: era um novo dia!

Tomei café com leite, cuscuz, ovo e pão com os meus pais na maior alegria e descontração. Eles estavam felizes, eu também. Despedi-me e retornei para São Luís. Trinta minutos depois, a minha mãe me enviou a seguinte mensagem de WhatsApp: “Meu filho, tu nem sabes: logo que saíste daqui, o teu pai me perguntou ‘Quem foi aquele homem que dormiu em nosso quarto e estava aqui conosco tomando café?’. Ela então respondeu: ‘Tu não sabes quem é? É Zequinha, nosso primeiro filho’. Ele retrucou: ‘Eu não o reconheci’. Esse ‘Velho Alzheimer’ é um ladrão de memórias, mas ainda não conseguiu roubar o amor que ele tem por mim, mesmo sem lembrar meu nome.”

“A velhice não é uma derrota, mas uma conquista que exige paciência e reverência.” (Mario Sergio Cortella)

Quando chega o tempo de servir, sinto-me frio, esquecido dos dias de suor e trabalho dos meus velhos pais.

Quando chega o tempo de retribuir, sinto-me distante da realidade que reside naquela casa onde nasci e fui bem cuidado.

Quando chega o tempo de segurar nos seus braços, levá-lo ao banheiro ou trocar as fraldas, por vezes, sinto o peso da obrigação.

Quando chega a tempestade, eu esqueço da água que alimentou a minha sede.

Quando chega a escassez, eu esqueço do alimento farto que me foi servido.

Quando chegar o amanhã, serei eu que precisarei do apoio que hoje ofereço.

Quando chegar o amanhã, estarei na dependência da mão que me acolhe com gratidão.

Assim, o ciclo se repetirá, de pai para filho, quando a velhice chegar. Que ela chegue bem; do contrário, não me alegra a expectativa da sua chegada. Como será a minha própria fragilidade?

Neste Dia do Abraço, acompanho o meu pai e, da cama onde estou, ao lado da sua, escrevo esta crônica-reflexão. Enquanto, entre uma cochilada e outra, o meu amado pai precisa da minha ajuda para ir ao banheiro, não sei dizer claramente se é a próstata ou a velhice que o faz levantar-se várias vezes à noite, mas suspeito que sejam as duas. A primeira é uma falha de projeto divino, pois a maioria dos homens em idade avançada sofrerá do mesmo mal; a segunda é uma dádiva, pois nem todos chegaremos lá. Portanto, só me resta escrever enquanto espero a próxima “mijada”. A vida é bela como uma sinfonia que, mesmo com notas dissonantes, encerra-se em harmonia.

“A gratidão é a memória do coração.” (Jean-Baptiste Massieu)

Cuidar dos pais na velhice é um espelho do que fomos e de quem seremos. A dependência, longe de ser um fardo, é a oportunidade derradeira de retribuir o sacrifício silencioso de quem nos deu a vida. Ao trocar as fraldas, ao conduzir os passos vacilantes ou ao apenas estar presente no silêncio da madrugada, não estamos apenas cumprindo um dever; estamos honrando a história que nos permitiu existir. Que a nossa gratidão seja maior que o cansaço, pois, no fim, o amor que oferecemos é o único legado que realmente perdura.

Rosário, 22 de maio de 2026.

Direitos reservados ao autor: 

José Carlos Castro Sanches.

Químico, professor, consultor, comunicador, escritor, cronista, contista, trovador, poeta e produtor cultural.

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