Por José Carlos Castro Sanches
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Deixa de tolice, Pituca! Onde já se viu palavra ter semente?
Mas tem Demétrio, tu não lembras quando éramos crianças e papai plantava arroz, feijão e milho lá na roça do Campo Limpo? Ele dizia que quem planta colhe. E depois de alguns meses, colhíamos os cereais que alimentavam a nossa família.
Sim, Pituca, nunca plantamos palavras, pelo que tenho nas lembranças.
__Pois, pois, Demétrio! É que tu plantas as palavras no ouvido, e não na terra de barro vermelho – retrucou Pituca, ajeitando o avental como quem se prepara para uma aula de botânica transcendental. __ Tu nunca reparaste que tem palavra que nasce tipo tiririca? Alguém solta um “dizem que…” ali na esquina e, quando vê, a cidade inteira está coberta de rama de fofoca, sufocando até as roseiras do jardim.
Demétrio coçou a cabeça, desconfiado, mas Pituca já estava inspirada:
A palavra “Bom-dia”: Essa é semente de girassol. Se tu plantas com um sorriso logo cedo, ela vira uma planta alta que ilumina a cara de quem está amarrado.
A palavra “Talvez”: Ih, essa é semente de chuchu. Dá em qualquer lugar, não precisa de cuidado, mas também não tem gosto de nada. É planta de gente que não quer compromisso com a colheita.
O “Eu te amo”: Ah, Demétrio… essa é orquídea rara. Se tu plantas no seco ou rega demais, ela morre. Tem que saber o tempo da umidade e o jeito do sol.
__ E as palavras brabas, Pituca? __Perguntou Demétrio, já entrando na dança.
__ Essas são as sementes de urtiga, homem! O sujeito solta o desaforo por bobeira e, daqui a pouco, tá todo mundo se coçando de raiva, com a alma empolada. O segredo é que a palavra, depois que sai da boca vira fruto na vida dos outros. Tem gente que anda por aí com o estomago cheio de semente de discórdia, sofrendo de azia de tanto falar o que não deve.
Pituca olhou para o horizonte da roça, sentenciando com aquela sabedoria de quem lê o mundo sem precisar de dicionário:
“O problema, Demétrio, é que tem gente que quer colher elogio, mas só vive semeando reclamação. Esquece que a língua é enxada e o mundo é o canteiro. Se tu plantares “obrigado”, colhe sossego. Se plantar “mentira”, colhe assombração.

Demétrio ficou em silêncio, o olhar perdido nas mãos calosas que, por décadas, só entenderam de lidar com o que era sólido. Ele olhou para o velho rádio de pilha sobre a mesa e, depois, para o vazio da cadeira onde o pai costumava sentar-se.
__Então – murmurou ele, com a voz subitamente mansa – papai era o maior lavrador de palavras que esse Campo Limpo já viu, não era, Pituca?
Pituca sorriu, e seus olhos miúdos brilharam com uma umidade que não era de chuva.
__Era sim, Demétrio. Lembra que ele nunca foi de grito? Quando o sol de estio esturricava o milho, a lagarta visitava o feijão ou a seca rachava o chão, ele não plantava maldição. Ele se sentava aqui nesse mesmo banco e dizia: “Amanhã o sol nasce com outra vontade”. Aquilo era a semente de esperança, meu irmão ou melhor era a semente da palavra plantada por um humilde sábio. A gente comia aquela frase e a fome de medo passava.
Ela se aproximou do irmão e pousou a mão sobre o ombro dele, como quem entrega um título de posse.
__O arroz e o feijão que ele plantou, a gente comeu e acabou. Mas as palavras que ele semeou no nosso juízo…essas estão dando flores e frutos até hoje. Toda vez que tu és honesto com um vizinho e amigo, ou que eu consolo um neto, é o pomar do velho que está rendendo.
Demétrio suspirou, sentindo o peito mais leve, como se tivesse acabado de capinar uma angústia antiga. Ele se levantou, deu um beijo no topo da cabeça da irmã e disse, num tom quase solene:

__Pois então me dá um abraço, Pituca. Quero ver se hoje eu planto em ti um “muito obrigado”.
Nunca se esqueça, Demétrio, de que as palavras são como espécies botânicas bem específicas: algumas dão em trepadeira (as fofocas), outras têm espinhos (as verdades secas) e há aquelas que precisam de adubo de silêncio para germinar. E outras que, como flores, ora embelezam os jardins em vida, ora os sepulcros em morte. A primeira são as pérolas que dão vida à escrita e transcendem o tempo pela beleza e profundidade. A segunda são as que já nascem mortas por serem ditas ou escritas fora de hora e contexto, por vezes maldosas, depreciativas, duras, inadequadas e frias – não trazem amor e inspiração, tiram o poder e degeneram quem as produz ou transmite.
E ali, no silêncio da tarde que caía, a palavra germinou na hora. Não precisou de terra, nem de enxada. Só precisou de dois corações dispostos a ser chão. No Campo Limpo da vida, o amor era única semente que, mesmo sem chuva, nunca deixava de dar colheita.

São Luís, 25 de fevereiro de 2026.
José Carlos Castro Sanches.
É Consultor de SSMA da Business Partners Serviços Empresariais – BPSE. Químico, professor, comunicador, escritor, cronista, contista, trovador e poeta maranhense. Membro Efetivo do PEN Clube do Brasil, da Academia Luminense de Letras, da Academia Maranhense de Trovas, da Academia Literária do Maranhão, da Academia Rosariense de Letras Artes e Ciências, da Academia Maranhense de Ciências e Belas Artes, da Academia de Letras, Artes e Cultura de Coroatá, da Sociedade de Cultura Latina do Estado do Maranhão, da Federação das Academias de Letras do Maranhão, da União Brasileira de Escritores, da Associação Maranhense de Escritores Independentes. Membro correspondente da Academia Arariense de Letras, Artes e Ciências, da Academia Vianense de Letras e da Academia Icatuense de Letras, Ciências e Artes. Tem a literatura como hobby. Para Sanches, escrever é um ato de amor e liberdade.

Autor dos livros: Tríade Sancheana – Colheita Peregrina, Tenho Pressa, A Jangada Passou; Trilogia da Vida: No Fluir das Horas, Gotas de Esperança e A Vida é um Sopro!; Pérolas da Jujuba com o Vovô, Pétalas ao Vento; Série Três Viagens: Das coisas que vivi na serra gaúcha, Me Leva na mala, Divagando na Fantasia em Orlando; O Voo da Fantasia e Momentos do Cotidiano. Livros em parceria: Borboletas & Colibris, TROVOAR – Trovas para Inspirar e Sonhar e ECOS – da Academia Maranhense de Trovas. Participa de diversas antologias brasileiras.

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