Por José Carlos Castro Sanches
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Dizem que a fotografia é um instante estático, mas, para quem traz a poesia nos olhos, ela é um portal. Ao encarar aquele registro, não vejo apenas cores e formas; eu embarco. Embalo minha vida na cadência dos versos e me transformo em um barco a velas, reinando absoluto em meio à vastidão azul.
Dali, do convés do meu imaginário, vislumbro a passagem da ilha que é meu Norte e meu porto. Amo esse chão cercado de águas, onde as ondas ora descansam num remanso fúlgido, ora fogem de mim, fugidias como o tempo. As velas vermelhas, de um colorido que não encontra par em nenhum catálogo de tintas, hipnotizam o olhar. No jogo da baixa-mar, as águas turvas pregam peças na razão: onde termina a areia e começa o oceano? É mar ou é Maranhão?
Nesta jornada, a hierarquia é clara, ainda que mística. Eu governo o barco, as mãos firmes na madeira e no leme. Mas quem me governa é a poesia. Ela se alia ao vento e à maresia para ditar o rumo. É um tom de magia eterna que me recorda a minha própria finitude: sozinho, eu nada sou. Sem o vento, sou apenas madeira inerte; sem a terra firme e sem a ilha, sou apenas deriva.
Pelas janelas do mar, o Maranhão se revela em banquetes e batuques. Vejo o peixe prateado e o caranguejo que dança na lama. Sinto o balanço das ondas e o “baculejo” do destino. O cheiro do peixe frito invade a alma, misturando-se ao perfume do arroz de cuxá e do camarão seco. O cenário é uma tapeçaria viva: há o brilho dos azulejos coloniais, o som das matracas de São João, o peso sagrado do tambor de crioula e o sustento simples do feijão. É o Arraial, a mulher bonita, a pipoca no saquinho de papel.
Da perspectiva das águas, os casarões e os canhões do palácio parecem sentinelas da história. Vejo Maria, vejo João, vejo a vida acontecendo sobre os telhados e sob as pontes. Mas, como todo navegante, também enfrento meus abismos. Vejo sonhos equilibrados no precipício e, quando a noite chega trazendo o escuro, rogo a Deus que guarde o meu suplício. As aves partem para o repouso, mas sinto que o Pai, que tudo vigia, permanece ali, no brilho da primeira estrela.
Sou um penitente sobre o barco, movimentando a vela com o respeito de quem manuseia um objeto sagrado. Questiono o mar sobre sua origem e sua força. Foi ele quem criou o dia e a noite? Foi ele a musa da minha poesia? Ou seria ele apenas um companheiro silencioso neste barco de agora?
Na incerteza da aurora, o horizonte me deslumbra e me paralisa. O rubro do pano da vela, da cor do sangue, é o que me faz enxergar a vida pulsa. Diante do barco imaginário e do poema que ganha forma, decido parar de lutar contra a corrente. Finco o nó na corda que sustenta o mastro e entrego o leme ao sabor do vento.
Para onde irei parar? Não sei. Onde o vento quiser me levar, ali estarei. Pois sei que, nesta travessia entre o real e o sonho, a Deus cabe a minha guarda e o meu destino. Afinal, sou apenas isto: um poeta peregrino em busca de sua própria luz.

São Luis, 27 de fevereiro de 2026.
José Carlos Castro Sanches.
É Consultor de SSMA da Business Partners Serviços Empresariais – BPSE. Químico, professor, comunicador, escritor, cronista, contista, trovador e poeta maranhense. Membro Efetivo do PEN Clube do Brasil, da Academia Luminense de Letras, da Academia Maranhense de Trovas, da Academia Literária do Maranhão, da Academia Rosariense de Letras Artes e Ciências, da Academia Maranhense de Ciências e Belas Artes, da Academia de Letras, Artes e Cultura de Coroatá, da Sociedade de Cultura Latina do Estado do Maranhão, da Federação das Academias de Letras do Maranhão, da União Brasileira de Escritores, da Associação Maranhense de Escritores Independentes. Membro correspondente da Academia Arariense de Letras, Artes e Ciências, da Academia Vianense de Letras e da Academia Icatuense de Letras, Ciências e Artes. Tem a literatura como hobby. Para Sanches, escrever é um ato de amor e liberdade.

Autor dos livros: Tríade Sancheana – Colheita Peregrina, Tenho Pressa, A Jangada Passou; Trilogia da Vida: No Fluir das Horas, Gotas de Esperança e A Vida é um Sopro!; Pérolas da Jujuba com o Vovô, Pétalas ao Vento; Série Três Viagens: Das coisas que vivi na serra gaúcha, Me Leva na mala, Divagando na Fantasia em Orlando; O Voo da Fantasia e Momentos do Cotidiano. Livros em parceria: Borboletas & Colibris, TROVOAR – Trovas para Inspirar e Sonhar e ECOS – da Academia Maranhense de Trovas. Participa de diversas antologias brasileiras.

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