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Oferece a você a oportunidade de leitura e reflexão sobre textos repletos de exemplos, experiências e lições que irão transformar a sua vida.

O GELO NO ALTAR

Por José Carlos Castro Sanches

Site: www.falasanches.com

“Amar não é sacrificar, é compartilhar.” (Thich Nhat Hanh)

Em um mundo onde as relações são frequentemente vistas como sinônimo de amor e sacrifício, é fácil se perder em um ciclo de doação excessiva e esquecimento de si mesmo. A crônica que segue é um convite à reflexão sobre as relações que, disfarçadas de amor, podem se tornar verdadeiros campos de batalha emocional, onde uma das partes se sacrifica em nome do outro. Inspirada em histórias reais e na busca por um amor saudável, esta história explora o limite tênue entre a dedicação e a autonegação, convidando o leitor a questionar: até que ponto o amor justifica o sacrifício de si mesmo?

“Quando o amor se torna um ato de resistência, é hora de repensar o vínculo.” (Bell Hooks)

Maria Fogo vivia em um inverno particular, mesmo nos dias de sol. O inverno chamava-se José Gelo. José não era um homem mau. Ele era, no entanto, uma vasta e silenciosa planície de gelo.

Quando Maria contava sobre seus sonhos, as palavras dela batiam na pele de José e caíam no chão, congeladas, antes que ele pudesse processá-las. Ele racionalizava as lágrimas dela como “desequilíbrio químico” e minimizava suas ausências como “necessidade de espaço”.

“O amor é a única liberdade, porque ele é a única coisa que não pode ser controlada.” (Nikos Kazantzakis)

Maria acreditava em uma mitologia perigosa: a de que o seu calor seria, eventualmente, suficiente para promover o degelo.     Certa noite, exausta de tentar explicar o inexplicável e de sentir o que ele não sentia, Maria decidiu fazer um experimento final. Ela sentou-se aos pés de José e segurou suas mãos de mármore frio. Ela doou cada grama de sua energia, de sua paciência e de seu silêncio compreensivo. Ela se tornou um incêndio de dedicação.

— José, você não vê o quanto eu estou me esforçando? — ela perguntou, com a voz trêmula.

José olhou para as mãos de Maria, agora avermelhadas pelo esforço de aquecê-lo, e respondeu com a precisão de um relógio:

— Eu não pedi para que você se queimasse. Se você está sofrendo, a escolha é sua.

Naquele momento, Maria percebeu a geometria cruel daquela relação. Enquanto ela sangrava calor para tentar derretê-lo, José não mudava de estado físico; ele apenas absorvia o sacrifício dela como se fosse um tributo natural. O gelo não se transformava em água; ele apenas esfriava o sangue de quem o tocava.

“O amor não é uma batalha a ser vencida, é um caminho a ser compartilhado.” (Mário Quintana)

Maria entendeu que a indisponibilidade de José não era um problema de “falta de lenha” no fogo dela, mas uma estrutura de isolamento que ele mesmo construíra para não ter que sentir. Ela estava tentando florescer em uma calota polar. Ao levantar-se, Maria não sentiu raiva. Sentiu apenas o peso da autonegação caindo de seus ombros.

“Às vezes, o amor não é suficiente para descongelar um coração.” (Paulo Coelho)

A Moral da História:

Ninguém consegue aquecer quem decidiu ser inverno. O sacrifício extremo não é prova de amor, é sintoma de um vínculo assimétrico. Quando você precisa ferir a si mesmo para manter uma relação de pé, você não está construindo um altar para o amor, mas um monumento à sua própria anulação. O amadurecimento do outro é um caminho individual; ninguém floresce sobre a ferida aberta de quem se doa demais.

São Luís, 24 de fevereiro de 2026.

José Carlos Castro Sanches.

É Consultor de SSMA da Business Partners Serviços Empresariais – BPSE. Químico, professor, comunicador, escritor, cronista, contista, trovador e poeta maranhense. Membro Efetivo do PEN Clube do Brasil, da Academia Luminense de Letras, da Academia Maranhense de Trovas, da Academia Literária do Maranhão, da Academia Rosariense de Letras Artes e Ciências, da Academia Maranhense de Ciências e Belas Artes, da Academia de Letras, Artes e Cultura de Coroatá, da Sociedade de Cultura Latina do Estado do Maranhão, da Federação das Academias de Letras do Maranhão, da União Brasileira de Escritores, da Associação Maranhense de Escritores Independentes. Membro correspondente da Academia Arariense de Letras, Artes e Ciências, da Academia Vianense de Letras e da Academia Icatuense de Letras, Ciências e Artes. Tem a literatura como hobby. Para Sanches, escrever é um ato de amor e liberdade.

Autor dos livros: Tríade Sancheana – Colheita Peregrina, Tenho Pressa, A Jangada Passou; Trilogia da Vida: No Fluir das Horas, Gotas de Esperança e A Vida é um Sopro!; Pérolas da Jujuba com o Vovô, Pétalas ao Vento; Série Três Viagens: Das coisas que vivi na serra gaúcha, Me Leva na mala, Divagando na Fantasia em Orlando; O Voo da Fantasia e Momentos do Cotidiano. Livros em parceria: Borboletas & Colibris, TROVOAR – Trovas para Inspirar e Sonhar e ECOS – da Academia Maranhense de Trovas. Participa de diversas antologias brasileiras.

NOTA: Esta obra é original do autor José Carlos Castro Sanches e está licenciada com a licença JCS24.02.2026. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original. Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas. Esta medida fez-se necessária porque ocorreu plágio de algumas crônicas do autor, por outra pessoa que queria assumir a autoria da sua obra, sem a devida permissão – contrariando o direito à propriedade intelectual, amparado pela Lei nº 9.610/98, que confere ao autor direitos patrimoniais e morais da sua obra.

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