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Oferece a você a oportunidade de leitura e reflexão sobre textos repletos de exemplos, experiências e lições que irão transformar a sua vida.

O CÁRCERE DO EGO

Por José Carlos Castro Sanches

Site: www.falasanches.com

“A solidão é a falta de comunicação consigo mesmo.” (Paulo Coelho)

A noite parecia não terminar, era tão longa como a eternidade. Eu sonhava ouvindo detalhadamente a confidencia de um marido narcisista… Ele queria descarregar a sua frustração por não saber conviver com o sucesso da sua parceira e não suportar que ela pudesse exercer o seu papel de mulher, sequer aceitava que ela pudesse ser ela mesma. Ele queria decidir até o que ela deveria pensar, se deveria ler ou cantar, sorrir ou chorar… Ela não suportava mais a convivência com aquele homem dominador, impaciente, grosseiro e pouco solidário. No fundo ele também sofria… não tanto quanto ela…

“O amor é a capacidade de perceber o outro em sua totalidade.” (Erich Fromm)

Num despertar silencioso. Ele contava a sua experiência, com a voz baixa e reflexiva, como se estivesse descobrindo um segredo escondido dentro de si mesmo. Transcrevo abaixo o texto que me fez refletir sobre o tema, ao final incluí as lições aprendidas durante a leitura: “Minha esposa e eu dormimos na mesma cama por anos. Em algum momento no meio do tortuoso caminho, viramos colegas de quarto. Sem brigas. Sem infelicidade. Só… nada. Ela fala. Eu aceno. Eu falo. Ela acena. A gente janta com a TV ligada para preencher o silêncio. Mês passado ela foi visitar a irmã por uma semana. E eu percebi uma coisa que me assustou: Eu não senti falta dela. Não porque eu não a amo. Porque eu não conseguia sentir. Não conseguia sentir quase nada. Ela foi embora e eu só… segui em frente. Mesma rotina, mesmo vazio.

“A solidão é o resultado de uma vida sem sentido.” (Viktor Frankl)

Quando foi que isso aconteceu? A gente costumava ser diferente. Eu lembro de ser diferente. Viagens de carro onde a gente conversava por horas. Rindo de bobeira. Querendo de verdade chegar em casa pra encontrar ela. Agora eu passo pela porta e já estou cansado. Já estou em outro lugar na minha cabeça. Ela pergunta do meu dia e eu dou a versão resumida porque a versão completa exige uma energia que eu não tenho. Ela parou de perguntar pela versão completa faz anos. Tenho 57 anos, uma boa esposa e um casamento sólido no papel. E me sinto como se estivesse assistindo tudo através de um vidro. Presente, mas ausente.

Ela planejou uma viagem de fim de semana para o nosso aniversário de casamento. Lugar bonito. Ela estava animada. Eu disse que sim. E passei três semanas temendo em silêncio. Não porque eu não queria ir. Porque eu sabia que ia estar lá, mas não ia estar lá. E ela ia perceber. E a gente ia fingir que não notou. Foi aí que eu percebi que isso não era sobre nós. Era sobre mim. Eu estava tão esgotado que não tinha mais nada para dar para ela e para ninguém. O tanque estava vazio e eu vinha funcionando no fio há tanto tempo que esqueci o que era ter combustível.

“O amor é a única liberdade que nos permite ser nós mesmos.” (Rollo May)

Comecei a procurar. Não “conselhos para casamento”. Esse tipo de coisa assume que você tem energia pra aplicar. Eu precisava de outra coisa. Achei algo que fez sentido. Quando você vive no estresse por anos — trabalho, responsabilidades, só a vida mesmo — seu sistema nervoso se adapta ao modo de sobrevivência. Ele prioriza ameaças em vez de conexão. Problemas em vez de pessoas. Conexão fica em segundo plano. Presença. As coisas que mais importam — tudo vira não-essencial quando você está em modo de sobrevivência. Não é que você não a ama. É que seu sistema está tão focado em procurar perigo que não sobra recurso pra conexão. Por isso você está lá, mas não está lá. Por isso você não consegue sentir. Seu sistema nervoso está ocupado demais sobrevivendo para lhe deixar viver de verdade.

“A verdadeira liberdade é a capacidade de escolher como viver.” (Jean-Paul Sartre)

Achei um exercício que me fez refletir. Não era sobre casamento — era sobre meu sistema nervoso. Há quanto tempo eu estava funcionando no vazio. Por que eu não conseguia estar presente. Os resultados mostraram o que eu já sabia, mas não conseguia nomear. Meu sistema estava em modo de sobrevivência há tanto tempo que esqueceu como fazer outra coisa. Conexão precisa de segurança. Eu não me sentia seguro há anos. Talvez décadas. O método deles era simples. Cinco minutos por dia. Pequenas práticas que sinalizam segurança para o sistema nervoso. Ensinam a parar de sobreviver e começar a estar presente de novo.

“O amor é a resposta para todas as perguntas.” (Paulo Coelho)

Comecei antes da viagem de aniversário. Não contei para ela. Queria ver se algo ia mudar. Semana um: Percebi que estava ouvindo de um jeito diferente. Ela me contou uma coisa do trabalho. Eu realmente acompanhei. Fiz uma pergunta de acompanhamento. Ela me olhou estranhamente. Semana dois: Cheguei do trabalho e não apaguei imediatamente. Sentei-me com ela na cozinha enquanto ela cozinhava. Só me sentei ali. Ela não disse nada, mas eu vi um sorrisinho. Semana três: Viagem de aniversário. Primeira noite, sentamo-nos na varanda e só conversamos. Sem TV. Sem celular. Duas horas. Sobre nada. Sobretudo. Eu estava lá. Realmente lá. Presente.

“A vida é um processo de se tornar quem você é.” (Carl Rogers)

Mês três: Ela disse uma coisa na cama uma noite. Quase dormindo. Achei que ela tinha apagado. “Sinto que meu marido voltou.” E tinha voltado. Olha o que eu quero que você saiba: Se você ama sua esposa, mas não consegue sentir — isso não é o casamento morrendo. É seu sistema nervoso tão esgotado que não consegue mais fazer conexão. Se você está lá mas não está lá, isso não é falta de amor. É um sistema travado em modo de sobrevivência, priorizando ameaças em vez de presença. Se vocês viraram colegas de quarto e você não sabe como aconteceu — aconteceu porque você ficou sem combustível. E ninguém te ensinou como reabastecer o tanque.

Reflexões e Lições Aprendidas:

– O narcisismo é um cárcere que nos impede de ver a verdadeira beleza do outro.

– A conexão e a presença são fundamentais para uma relação saudável.

– O sistema nervoso pode se adaptar ao modo de sobrevivência, priorizando ameaças em vez de conexão.

– Pequenas práticas diárias podem sinalizar segurança pro sistema nervoso e nos ensinar a estar presente de novo.

– O amor é a resposta para todas as perguntas, mas é preciso estar presente para senti-lo.

São Luís, 04 de fevereiro de 2026.

José Carlos Castro Sanches.

É Consultor de SSMA da Business Partners Serviços Empresariais – BPSE. Químico, professor, comunicador, escritor, cronista, contista, trovador e poeta maranhense. Membro Efetivo do PEN Clube do Brasil, da Academia Luminense de Letras, da Academia Maranhense de Trovas, da Academia Literária do Maranhão, da Academia Rosariense de Letras Artes e Ciências, da Academia Maranhense de Ciências e Belas Artes, da Academia de Letras, Artes e Cultura de Coroatá, da Sociedade de Cultura Latina do Estado do Maranhão, da Federação das Academias de Letras do Maranhão, da União Brasileira de Escritores, da Associação Maranhense de Escritores Independentes. Membro correspondente da Academia Arariense de Letras, Artes e Ciências, da Academia Vianense de Letras e da Academia Icatuense de Letras, Ciências e Artes. Tem a literatura como hobby. Para Sanches, escrever é um ato de amor e liberdade.

Autor dos livros: Tríade Sancheana – Colheita Peregrina, Tenho Pressa, A Jangada Passou; Trilogia da Vida: No Fluir das Horas, Gotas de Esperança e A Vida é um Sopro!; Pérolas da Jujuba com o Vovô, Pétalas ao Vento; Série Três Viagens: Das coisas que vivi na serra gaúcha, Me Leva na mala, Divagando na Fantasia em Orlando; O Voo da Fantasia e Momentos do Cotidiano. Livros em parceria: Borboletas & Colibris, TROVOAR – Trovas para Inspirar e Sonhar e ECOS – da Academia Maranhense de Trovas. Participa de diversas antologias brasileiras.

NOTA: Esta obra é original do autor José Carlos Castro Sanches e está licenciada com a licença JCS04.02.2026. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original. Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas. Esta medida fez-se necessária porque ocorreu plágio de algumas crônicas do autor, por outra pessoa que queria assumir a autoria da sua obra, sem a devida permissão – contrariando o direito à propriedade intelectual, amparado pela Lei nº 9.610/98, que confere ao autor direitos patrimoniais e morais da sua obra.

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