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ENTRE O PALANQUE E O POVO (O Custo da Inércia)

Por José Carlos Castro Sanches

Site: www.falasanches.com

Passada a euforia e o circo mambembe das eleições, os candidatos vitoriosos evaporam-se com a velocidade de um éter esquecido no bico de Bunsen. Uns eleitores sofrem de amnésia crônica, enquanto outros guardam, como relíquias de museu de horrores, as lembranças daquelas promessas ocas que ecoavam nos palanques como sinos furados. Como bem observava o genial escritor e jornalista Millôr Fernandes: “Brasil, ame-o ou deixe-o. Não, espere: deixe-o primeiro, depois ame-o.” Pena que os políticos pareçam aplicar essa máxima ao contrário: amam o poder loucamente e deixam o eleitor chupando o dedo logo após a apuração.

Acontece que esses nobres edis esquecem um detalhe incômodo: a sobrevivência política depende do voto soberano ou da criatividade contábil das urnas eletrônicas. O primeiro caminho exige cofres forrados para comprar consciências a preço de atacado; o segundo, uma influência digna de ilusionista para manipular resultados. Todavia, ambas as opções balançam mais que pêndulo em dia de vendaval. Especialmente a segunda via, pois o político eleito à base da sabotagem caminha sobre ovos estragados. Mantém uma distância olímpica do povo por razões óbvias: sabe perfeitamente que a sua certidão de nascimento eleitoral foi carimbada na base da fraude.

Quando o calendário avança e o cheiro de nova eleição começa a povoar o ar, a ânsia de perpetuação no trono desperta os instintos mais primitivos da fauna política. Bate aquela insegurança, um suor frio, o medo paralisante e o puro desespero de quem precisa convencer o cidadão comum de que mudou da água para o vinho. É de uma tolice atroz imaginar que o povo brasileiro carece de massa cinzenta ou sofre de Alzheimer coletivo. Como dizia o pensador Mário Quintana com sua eterna leveza: “O segredo não é correr atrás das borboletas… É cuidar do jardim para que elas venham até você.” Mas nossos políticos preferem a rede de arrastão e o conto do vigário, ignorando que o eleitor atento sabe perfeitamente quem veste a camisa da responsabilidade e quem apenas desfila fantasias de salvador da pátria.

Diante desse cenário tragicômico, cabe a nós, cidadãos armados de consciência e de um bom senso inegociável, virar o jogo da história. Afinal, a democracia não é um passe de mágica, mas um exercício diário de exigência e discernimento. É hora de sepultar o voto de cabresto e as ilusões baratas, abraçando com firmeza a responsabilidade de escolher os verdadeiros construtores do futuro.

Pois, como nos advertia o grande poeta e cronista Carlos Drummond de Andrade, “ser feliz sem motivo é a mais autêntica forma de felicidade” — e escolher candidatos preparados, comprometidos com a ética e dotados de sólida bagagem moral é, sem dúvida, a única forma de garantir que a nossa felicidade cívica deixe de ser uma miragem distante e passe a habitar o cotidiano da nossa gente.

Rosário, 01 de outubro de 2026.

Direitos reservados ao autor: José Carlos Castro Sanches.

Químico, professor, consultor, comunicador, escritor, cronista, contista, trovador, poeta e produtor cultural.

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