Por José Carlos Castro Sanches
Site: www.falasanches.com
”Não sou o que me aconteceu, sou o que escolho me tornar.” (Carl Gustav Jung)
Neste 27 de agosto, data dedicada a celebrar e exaltar o Dia do Psicólogo, voltamos nossos olhares para a nobre missão de quem se dedica a decifrar a alma humana. Navegamos a passos céleres por um mar tempestuoso e invisível. O mundo contemporâneo, tragado pela velocidade avassaladora da informação e pela imperiosa presença do universo virtual, converteu a vida cotidiana em um turbilhão de demandas imensuráveis. Vivemos sob o jugo de uma sociedade insaciável — sedenta por métricas, imediatismo e performances inatingíveis. Nesse cenário em que o tempo parece ter perdido a pausa e o advento da Inteligência Artificial redefine o trabalho e a própria noção do “ser”, a mente humana paga um preço amargo. Multiplicam-se os conflitos existenciais, as solidões acompanhadas na tela do celular e os abismos abertos pelos desencontros de gerações. O homem moderno padece de um cansaço da alma: uma fome profunda de afeto, de amor genuíno e de presença em meio a uma era de corpos presentes e mentes ausentes.
”Quando não somos mais capazes de mudar uma situação, somos desafiados a mudar a nós mesmos.” (Viktor Frankl)
É no centro dessa engrenagem acelerada que a figura do psicólogo se ergue não apenas como um observador, mas como um autêntico guardião da sanidade. Diante da fragilidade humana desnudada pelas conexões virtuais e pelo isolamento emocional, a psicologia deixa de ser apenas uma técnica de escuta para se tornar um ato de resistência e resgate da humanidade. Como suportar as pressões de um mundo que exige perfeição e aceleração contínuas? Até onde a psique humana resistirá sem se partir? As respostas não residem no isolamento ou no amortecimento dos sentidos, mas na coragem de encarar as sombras e reconstruir os vínculos mais essenciais.
“A ilusão de que a tecnologia nos aproxima ignora o fato de que ela também nos separa da experiência do encontro real.” (Zygmunt Bauman)
O psicólogo enfrenta, contudo, o paradoxo de ser o farol em meio à tempestade e, ao mesmo tempo, partilhar do mesmo mar. Para sustentar a dor do outro e manter a sobriedade em uma sociedade que flerta cotidianamente com o delírio da pressa e do consumo, esses profissionais precisam desbravar o próprio cuidado. Manter-se forte e capaz de superar adversidades exige do psicólogo a sabedoria de acolher as próprias limitações, buscar o autocuidado constante, manter a supervisão ética e cultivar espaços de respiro. Afinal, para oferecer solo firme ao outro, é preciso ter onde pisar.
“O curioso paradoxo é que, quando me aceito como sou, então posso mudar.” (Carl Rogers)
Os desafios futuros exigirão uma atuação cada vez mais interdisciplinar e revolucionária. O futuro da profissão não está em competir com a velocidade dos tempos ou com os algoritmos que preveem comportamentos, mas em oferecer o imprevisível: a empatia viva, o silêncio que acolhe e o espaço onde a dor não precisa de justificativa. Diante das novas formas de adoecimento mental, das adições digitais e do acomodamento existencial, caberá à psicologia integrar a tecnologia como ferramenta, sem jamais ceder o espaço sagrado do encontro humano.
“A inteligência é o que você usa quando não sabe o que fazer. O afeto é o que nos dá motivos para continuar.” (Jean Piaget)
Fazer diferente hoje significa subverter a lógica da utilidade e do lucro emocional. Resgatar a sanidade numa sociedade doente exige desacelerar voluntariamente, reaprender a contemplação e restabelecer o afeto como pilar das relações interpessoais. A revolução do psicólogo no século XXI não será silenciosa no sentido de omissa, mas transformadora na sua capacidade de criar microrrevoluções de afeto: ensinar o indivíduo a desarmar-se das telas para abraçar a própria essência, reaprendendo a amar e a se conectar com a finitude e com a beleza da vida real.
“Podemos gastar a vida inteira acreditando que o amor é uma resposta, quando na verdade ele é uma construção contínua diante do inevitável desamparo humano.” (Jacques Lacan)
Nesta oportunidade tão especial, rendo minhas mais profundas e sentidas homenagens às minhas filhas, Rafaelle Sanches Cutrim e Danielle Monteiro Sanches Oliveira, psicólogas que honram a profissão com sensibilidade e dedicação diárias; aos estimados psicólogos da Business Partners Serviços Empresariais – BPSE, que levam o equilíbrio e a saúde mental ao ambiente corporativo; e a todos os psicólogos e psicólogas ao redor do mundo. Que as vossas conquistas e descobertas continuem a iluminar caminhos e que o futuro reserve a devida exaltação a este trabalho tão nobre e indispensável.
Sobreviver com sobriedade em um mundo de excessos é um exercício de liberdade. E enquanto houver a escuta atenta, o olhar empático e a dedicação do psicólogo, a humanidade terá sempre um ancoradouro seguro para onde voltar e se lembrar de quem realmente é.
“O principal objetivo da educação e do cuidado da mente é criar pessoas capazes de fazer coisas novas, e não simplesmente repetir o que as outras gerações fizeram.” (Melanie Klein)
São Luís, 27 de agosto de 2026.
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José Carlos Castro Sanches. Químico, professor, consultor, comunicador, escritor, cronista, contista, trovador, poeta e produtor cultural.
