Por José Carlos Castro Sanches
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Parte I: A Descoberta da Palavra
“Não há agonia maior do que carregar uma história não contada dentro de você.” — Maya Angelou
A poeira da estrada parecia ter se acumulado não apenas nas botas do jovem andarilho, mas também em sua alma. Ele vagava sem rumo, carregando o peso invisível de memórias que se recusavam a desaparecer. Seus olhos, antes cheios de curiosidade, agora refletiam as dores que o assombravam.
Certa tarde, cansado e sedento, avistou uma pequena cabana. Um homem idoso, de fisionomia serena e cabelos brancos como a neve, estava sentado na varanda, escrevendo em um caderno surrado. O jovem aproximou-se timidamente. O velho sorriu e ofereceu-lhe um copo d’água.
Enquanto bebia, o jovem observava o homem. As palavras fluíam livremente da caneta, como um rio buscando o mar. Intrigado, perguntou:
— Por que o senhor escreve tanto? O que há de tão importante nessas páginas?
O velho respondeu com bondade:
— Eu escrevo para libertar minha mente e curar meu coração. Escrevo para dar voz aos meus silêncios e sentido ao meu caos.
O andarilho franziu a testa, confuso:
— Como escrever pode fazer isso? As palavras são apenas símbolos no papel. Como podem ter poder sobre nós?
O sábio explicou-lhe a teoria de James Pennebaker sobre a escrita expressiva. Falou sobre como colocar no papel nossas emoções e experiências mais profundas nos ajuda a processá-las de forma saudável.
Parte II: Da Dor ao Significado
“Ao traduzir uma experiência traumática amorfa em uma narrativa coerente, tornamos o evento assimilável e mais gerenciável para o cérebro.” — James Pennebaker
— Quando guardamos nossas dores, elas se tornam algemas que nos prendem ao passado — disse o velho. — Impedem-nos de viver o presente. Mas, ao escrevermos sobre elas, damos-lhes forma e significado. Transformamos o caos em ordem, a dor em aprendizado.
O jovem escutava atentamente, sentindo uma pontada de esperança:
— Mas eu não sei escrever — suspirou. — Minhas palavras são confusas.
— Não importa a qualidade da escrita — sorriu o sábio. — O que importa é a honestidade de colocar no papel o que você sente. Escreva sem julgamentos ou preocupações gramaticais. Apenas deixe as palavras fluírem.
“A caneta é o bisturi da mente, capaz de extirpar os tumores silenciosos da alma.” — Reinaldo Arenas
Encorajado, o jovem pegou um caderno e começou a escrever. Registrou suas perdas, dores, medos e incertezas. À medida que escrevia, sentia um peso sendo tirado de seus ombros. As palavras davam forma ao seu caos interior. Percebeu que escrever era uma ferramenta poderosa para a autodescoberta e a cura. Como disse James Hillman: “A escrita expressiva liberta o passado de seu fardo estéril e o transmuta em sabedoria viva.” E Joan Didion: “Escrevo inteiramente para descobrir o que estou pensando, o que estou olhando, o que vejo e o que isso significa.”
Dias depois, o jovem agradeceu ao sábio e seguiu viagem. Agora, carregava seu caderno e a certeza de que a escrita seria sua companheira.
“Escrever é uma forma de terapia; às vezes me pergunto como aqueles que não escrevem conseguem escapar da loucura.” — Graham Greene
E você? Por que escreve?
São Luís, 28 de junho de 2026.
Direitos reservados ao autor:
José Carlos Castro Sanches.
Químico, professor, consultor, comunicador, escritor, cronista, contista, trovador, poeta e produtor cultural.
