Por José Carlos Castro Sanches
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Chegou o bendito período eleitoral, aquela época mágica do ano em que a santidade baixa de supetão sobre a classe política. Eli, que não via um altar desde o próprio batismo, subitamente virou o fiel mais fervoroso da paróquia e passou a frequentar todas as igrejas da cidade. Sasá, sempre tão apegada ao ar-condicionado de seu gabinete, resolveu se reunir com a associação de moradores da favela do Buraco para tomar um “chazinho com broa” e sentir o “calor do povo”. Lulu, o desaparecido do século, reapareceu milagrosamente nos churrascos de domingo para abraçar pessoas suadas e sem camisa. Bastião, demonstrando um afeto maternal de dar inveja, carrega o bebê alheio no meio do mormaço da passeata. Rosa virou a distribuidora oficial de gasolina para qualquer motorista que aceite colar um adesivo no para-choque. Tunico distribui notas de cinquenta, enquanto João, mais generoso ou mais desesperado, já manda logo as de cem.
Mas o espetáculo da caridade e do ridículo não para por aí. Nessa época de caça desenfreada ao voto, os políticos são capazes de performances inacreditáveis para fingir proximidade com o cidadão:
Acometem-se de uma amnésia gastronômica seletiva e devoram pastel de feira frio com caldo de cana cheio de mosca, fazendo biquinho de satisfação para as câmaras como se estivessem num restaurante com estrela Michelin.
Descobrem uma paixão repentina pelo futebol de várzea local, vestem a camisa do time do bairro — que claramente não serve na barriga —, entram em campo no meio do lamaçal e comemoram gol de canela como se fosse final de Copa do Mundo.
Promovem o milagre da multiplicação do aperto de mão, cumprimentando postes, manequins de vitrine e cachorros vira-latas de rua com a mesma intensidade e o mesmo sorriso plastificado.
Ficam subitamente especialistas na arte da construção civil, pegando na enxada por exatos dez segundos para bater uma foto fingindo que estão asfaltando a rua que prometeram arrumar no mandato passado.
Operam a ressurreição de parentescos improváveis, chamando qualquer eleitor desconhecido na rua de “meu irmão”, “meu padrinho” ou “meu grande amigo de infância”, mesmo sem nunca ter visto a criatura na vida.
Demonstram uma sensibilidade artística sem precedentes, arriscando passos desengonçados de dança em qualquer comício, do bumba-meu-boi ao axé, apenas para provar ao eleitorado que são “gente como a gente”.
Desenvolvem um dom divinatório para a engenharia urbana, apontando para terrenos baldios cheios de mato e prometendo hospitais de ponta, aeroportos internacionais e metrôs subterrâneos que nunca sairão do papel.
Como bem alertava o genial humorista e francamente cético Millôr Fernandes: “O livre pensar é só pensar. Política é a arte de impedir que as pessoas tomem parte naquilo que lhes diz respeito.”
Entretanto, assim que as urnas são apuradas e o período de caça ao voto se encerra, a metamorfose ao contrário acontece de forma instantânea. Os candidatos eleitos sofrem uma abdução institucional e desaparecem da circulação com a velocidade de um raio. Nos próximos quatro anos de mandato, o modo como passam a tratar o eleitorado assume contornos fascinantes de puro sarcasmo:
O político desenvolve uma cegueira seletiva de altíssimo nível, sendo incapaz de enxergar aquele mesmo eleitor que o abraçou na campanha, mesmo que o sujeito esteja pulando e acenando bem na frente do seu carro oficial de vidros fumê.
Acessórios como o telefone celular do gabinete passam por uma rigorosa blindagem antieleitor, na qual qualquer ligação de um cidadão comum cai direto em uma secretária eletrônica que nunca é checada ou no limbo do esquecimento.
O gabinete transforma-se em uma fortaleza medieval inexpugnável, protegida por três camadas de secretários e assessores treinados para dizer que o nobre parlamentar está “em reunião externa importantíssima” — mesmo que ele esteja apenas tirando um cochilo no sofá.
O sorriso largo e acessível dá lugar a uma feição de profunda austeridade e cansaço institucional, sugerindo que qualquer abordagem na rua para cobrar promessas é uma perturbação gravíssima à “ordem e ao decoro do cargo”.
O discurso afável e popular é substituído da noite para o dia por uma linguagem empolada e recheada de “juridiquês”, usada estrategicamente para confundir e enrolar o eleitor que ousar perguntar sobre a verba orçamentária.
As visitas aos bairros periféricos são suspensas por tempo indeterminado sob a alegação de “pauta de segurança e agenda oficial incompatível”, transferindo seus passeios exclusivamente para restaurantes de luxo e viagens internacionais.
O cidadão deixa de ser o “meu amigo do peito” e volta à sua condição original de mero estorvo burocrático, alguém que só serve para pagar impostos e pontuar em pesquisas de opinião quando a aprovação da gestão despenca.
Como observou com precisão cirúrgica o escritor inglês George Orwell: “O discurso político é desenhado para fazer as mentiras parecerem verdades e o assassinato respeitável, e para dar uma aparência de solidez ao puro vento.”
Aí, então, serão quatro longos anos de descanso e isolamento até a próxima campanha — aquele momento único e fugaz em que eles finalmente fingem que trabalham e fingem que dão alguma importância à existência do eleitorado.
Resta a nós encarar a dura e deprimente realidade desse ciclo vicioso: enquanto a classe política atua no palco como mestres da manipulação, o eleitorado insiste no papel triste de plateia ingênua. Os tolos aplaudem o espetáculo, carregam vigaristas nos ombros e os conduzem ao pódio da vitória para, logo em seguida, serem jogados no lixo da indiferença. É a tragédia de uma sociedade que vende o seu futuro por um prato de comida ou cinquenta reais e depois passa quatro anos chorando as mazelas de um país que ela mesma ajudou a condenar.
Rosário, 21 de agosto de 2026.
Direitos reservados ao autor:
José Carlos Castro Sanches.
Químico, professor, consultor, comunicador, escritor, cronista, contista, trovador, poeta e produtor cultural.
