Por José Carlos Castro Sanches
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“A superstição é a religião de mentes fracas, mas é também a poesia de corações temerosos.” (Edmund Burke)
Você sabia?
Há quem jure de pés juntos que a Lua cheia alvoroça o sangue e faz os berçários das maternidades lotarem. Outros não pisam em grietas de calçadas, com receio de partir a espinha da própria mãe, ou escondem a vassoura atrás da porta para despachar aquela visita indigesta. Percorremos o século XXI munidos de supercomputadores no bolso, mas ainda mantemos o hábito ancestral de hesitar diante de um espelho quebrado.
É fascinante observar como a mente humana cultiva seus próprios mistérios. Cruzar o globo é descobrir que a lógica do oculto muda de endereço, mas nunca perde a força.
Na Coreia do Sul: Existe o temor quase sagrado do “fan death”: a crença de que dormir num quarto fechado com um ventilador ligado pode roubar o oxigênio e ser fatal.
Na Rússia: Você jamais verá alguém assobiar dentro de casa, sob a pena quase certa de espantar todo o dinheiro da família pela janela.
Na Grécia e no Oriente Médio: O amuleto contra o mati (o famoso olho gordo) não é apenas um adorno azul-turquesa, mas um escudo indispensável contra o peso do alheio.
No Japão: Esconder os polegares ao passar por um cemitério é um gesto automático de respeito e proteção, garantindo que os espíritos dos mortos não entrem sob suas unhas.
Viajar pelas culturas é perceber que, no fundo, somos todos colecionadores de amuletos invisíveis. Criamos pequenos rituais para tentar domesticar o imprevisível, cobrindo o caos do universo com uma colcha de retalhos feita de símbolos, proibições e superstições.
O mito do “13” que assusta o Ocidente dá lugar ao número “4” na Ásia — cuja pronúncia se assemelha à palavra morte, fazendo com que edifícios inteiros matematicamente saltem do terceiro para o quinto andar. Muda a geografia, altera-se o símbolo, mas o impulso primordial permanece intacto: o desejo ardente de ter algum controle sobre o amanhã.
Entender os mitos e crenças não convencionais não significa validar o absurdo, mas reconhecer a poesia desesperada que existe em nossa espécie. No fim das contas, a superstição é o modo como a imaginação humana tenta abraçar a incerteza. Não são os gatos pretos ou os espelhos estilhaçados que moldam nosso destino, mas sim a necessidade inata de acreditar que, em meio ao vasto e silencioso desconhecido, existe uma lógica — ainda que misteriosa — nos protegendo do escuro.
“Há mais coisas no céu e na terra, Horácio, do que sonha a nossa filosofia.” (William Shakespeare)
São Luís, 16 de agosto de 2026.
Direitos reservados ao autor:
José Carlos Castro Sanches.
Químico, professor, consultor, comunicador, escritor, cronista, contista, trovador, poeta e produtor cultural.
