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Oferece a você a oportunidade de leitura e reflexão sobre textos repletos de exemplos, experiências e lições que irão transformar a sua vida.

PRAZERES DA VIDA

Por José Carlos Castro Sanches

Site: www.falasanches.com

“Nada é mais estimulante do que o prazer das coisas simples quando vividas com inteireza.”

(Michel de Montaigne)

Dizem por aí que as maiores alegrias da existência custam fortunas, exigem passaportes carimbados ou dependem de metas inalcançáveis traçadas por algum guru de produtividade na internet. Pura vaidade. A alma humana é infinitamente mais simples, pragmática e, sejamos honestos, maravilhosamente animal. Se prestarmos atenção, o nirvana não está no topo do Everest, mas espalhado em pequenos rituais diários que a civilização insiste em embrulhar com salamaleques para não parecer vulgar.

O primeiro desses delírios começa no silêncio da mesa. Há algo de quase místico na arte de abocanhar a vida. É aquele instante em que o aroma invade as narinas e a primeira mastigação faz o cérebro desligar de todos os boletos a vencer. Saborear, mastigar, engolir — uma sinfonia de texturas e temperos que transforma qualquer dia miserável num espetáculo de pura indulgência, provando que a felicidade, no fundo, passa invariavelmente pela boca.

Mas a experiência fica incompleta sem o seu par perfeito: a liquidez. Nada se compara ao alívio gélido ou aconchegante que desce suavemente pela garganta, hidratando a alma ressecada pela rotina. Seja em uma taça elegante, num copo suado de boteco numa tarde sufocante de calor ou naquele gole restaurador de água no meio da noite, deslizar esse líquido ruela abaixo é o combustível líquido do bem-estar.

A partir daí, o corpo humano revela sua mecânica brilhante — porque tudo o que entra, meus caros, precisa encontrar o seu glorioso caminho de volta.

E é aí que atingimos o cume da iluminação espiritual. Pense naquele desespero silencioso de quando o reservatório interno ameaça explodir na fila do banco ou no trânsito parado. O corpo teso, o suor frio na testa, a pressa desajeitada ao encontrar finalmente o recinto sagrado. Abrir o zíper, fechar os olhos e, finalmente, soltar. É uma libertação quase poética, uma cascata de alívio instantâneo que faz a mente flutuar e sussurrar um “ah…” silencioso. Poucas coisas no universo superam o êxtase de esvaziar o tanque.

Por fim, o triunfo supremo da existência humana, a meditação definitiva da vida moderna. Aquele momento sagrado de pausa absoluta no dia, munido de um smartphone carregado, onde o trono de cerâmica nos acolhe sem julgamentos. Não há reunião urgente ou cobrança que alcance o homem em seu momento de expurgo interno. É a purificação máxima, a descompressão visceral que devolve a leveza ao corpo e a paz ao espírito. É o descarrego perfeito.

No fim das contas, a grande sabedoria de viver bem resume-se a quatro atos fundamentais: alimentar-se, degustar uma bebida, aliviar a bexiga e evacuar com tranquilidade. O resto é só bobagem inventada para preencher o tempo entre um alívio e outro.

“O prazer é a única coisa pela qual vale a pena viver. Nada envelhece mais depressa do que a felicidade de ter sido razoável.” (Oscar Wilde)

São Luís, 15 de agosto de 2026.

Direitos reservados ao autor:

José Carlos Castro Sanches

Químico, professor, consultor, comunicador, escritor, cronista, contista, trovador, poeta e produtor cultural.

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