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Oferece a você a oportunidade de leitura e reflexão sobre textos repletos de exemplos, experiências e lições que irão transformar a sua vida.

O RITMO INVISÍVEL DA VIDA (As Arestas e os Ecos do Tic e do Toc)

Por José Carlos Castro Sanches

Site: www.falasanches.com

“O relógio no peito não se apressa,

Marca um tic de vida a cada pulso,

Na dança invisível que não cessa,

Guiando a existência em seu impulso.”

(Olavo Bilac)

Há dias eu me consumia com a ideia de escrever algo sobre duas palavras, fonemas ou o que quer que quisesse chamar — ora vinha à minha cabeça um tic, ora um toc. Diante da reincidência e teimosia do cérebro, concluí que o melhor seria experimentar a dobradinha: tic e toc. Como bem versou Mario Quintana, ao capturar essa cadência miúda do tempo nas coisas: “A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa. Quando se vê, já são seis horas! Quando se vê, já é sexta-feira… Quando se vê, já terminou o ano… E assim o relógio faz tic-tac e a vida escorre nas mãos.” É nessa frequência, onde o ponteiro da razão cruza com os impulsos do corpo, que o texto ganha vida.

A vida é costurada por pequenos sons e impulsos que frequentemente passam despercebidos, até que paremos para escutar o compasso miúdo da nossa própria rotina. No vasto dicionário do cotidiano, poucas combinações fônicas são tão curiosas e repletas de sentidos ocultos quanto o par silábico “TIC” e “TOC”. Parecem, à primeira vista, meras sílabas brincalhonas, invenções do idioma para traduzir a cadência do tempo ou o esbarrão sutil de um nudillo na madeira. Contudo, quando nos debruçamos sobre elas, descobrimos que esse dueto fonético transita com igual elegância entre a precisão da linguagem, os mistérios da saúde humana e os ecos sutis da própria natureza.

Na perspectiva da linguagem humana, tais vocalizações nasceram da magia da onomatopeia — aquela engenhosa figura de linguagem em que a palavra escrita busca moldar e imitar o som do mundo real. Quando os primeiros relógios mecânicos surgiram para regular as horas da humanidade, a engenharia interna de suas engrenagens, com seu mecanismo de escapamento, produzia dois ruídos ligeiramente distintos: o primeiro toque do metal, agudo e curto, transformou-se no “tic”; o segundo toque, um pouco mais grave e oco, fez-se “toc”. O encontro ritmado do agudo com o grave, esse alternar fluido entre a tensão e o alívio, deu ao ser humano a sensação tátil e auditiva da passagem inexorável do tempo.

Entretanto, o “TIC” e o “TOC” extrapolam as paredes de madeira dos velhos relógios de sala e adentram a própria anatomia e o comportamento humano. No campo da saúde e do bem-estar, a palavra TIC refere-se àquela contração involuntária, rápida e repentina de um músculo — uma piscada involuntária de olhos, um franzir de testa ou um pigarro repetitivo que o corpo executa sem pedir licença à consciência. É como se a própria carne tentasse ajustar seu ritmo em resposta ao estresse da vida moderna. Já a palavra TOC carrega um peso clínico mais denso e reflexivo: é a sigla para o Transtorno Obsessivo Compulsivo, uma condição da mente caracterizada por obsessões intrusivas e compulsões repetitivas. Manifesta-se no homem que lava as mãos compulsivamente até sentir-se limpo, na mulher que checa a tranca da porta mais de dez vezes antes de conseguir dormir, ou na criança que precisa repetir uma frase incessantemente para aplacar uma ansiedade invisível.

Apesar de guardarem significados clínicos específicos, é na observação bem-humorada do dia a dia que percebemos o quanto todos nós possuímos nossos pequenos e inofensivos “tics e tocs”. Quem nunca pegou a si mesmo batendo suavemente os dedos no balcão de madeira no ritmo de um “toc-toc” ansioso enquanto olha para o relógio na parede escutando o seu “tic-tic”? A fusão desses dois conceitos espelha a busca humana por equilíbrio e controle. O TIC representa o estalo, a faísca, o movimento corporal que nos conecta com os impulsos orgânicos da natureza; o TOC representa a estrutura, a batida firme na porta, a busca por ordem frente ao caos que nos cerca.

Perceber essa sincronicidade nos ensina a olhar para a saúde com mais empatia e leveza. Quando a mecânica do tempo encontra os batimentos do nosso coração, compreendemos que viver é esse constante alternar entre o toque grave e o agudo. Seja no eco rítmico do tempo que avança ou na sensibilidade do corpo que reage, o importante é manter a harmonia no compasso, acolhendo nossas pequenas manias com sabedoria e serenidade.

“Bate a porta num toc surdo e seco,

Despertando o mistério na penumbra,

E no silêncio da casa o antigo eco

Revela o tempo que a mente vislumbra.”

(Fernando Pessoa)

São Luís, 12 de agosto de 2026.

Direitos reservados ao autor:

José Carlos Castro Sanches.

Químico, professor, consultor, comunicador, escritor, cronista, contista, trovador, poeta e produtor cultural.

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