Por José Carlos Castro Sanches
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“O mar calmo nunca fez um bom marinheiro; é na tempestade que aprendemos a dominar o leme e o próprio espírito.” (Joshua Slocum – Primeiro velejador a completar a volta ao mundo sozinho)
Um movimento brusco e inesperado rasgou a calmaria da água e colidiu contra a minha embarcação. Afrontado pelo susto, a mente reagiu de imediato na busca por respostas: por que haveria de ser a minha jornada o alvo desse golpe? Quem tencionava me prejudicar? Quem lançara aquele barco na minha direção? Em meio ao turbilhão da indignação, eu procurava avidamente um culpado para o acaso, alguém para carregar o peso da minha raiva. Foi então que olhei atentamente e percebi: o barco vindo em minha direção estava completamente vazio.
E agora, a quem culpar? Sem um remador para combater, a ira desmorona em perplexidade. O episódio revela a mecânica invisível das nossas angústias diárias, nas quais frequentemente nos deparamos com confrontos que sequer existiram, mas que ganham proporções gigantescas na arquitetura da mente. Quantas vezes transformamos pequenas brisas insignificantes em tsunamis avassaladores? Quantas vezes permitimos que pensamentos errantes desatem a voar, criando dragões que nos devoram por dentro sem jamais terem habitado o mundo real?
Como bem observou o filósofo estoico Sêneca: “Sofremos mais frequentemente na imaginação do que na realidade.” É essa mente desocupada do presente e fixada no problema que alimenta fantasias trágicas e nos arrasta ao desespero. Aquilo que poderia ser harmonizado com uma conversa franca, um telefonema afetuoso ou uma simples mensagem de esclarecimento prefere ficar remoendo no peito — um veneno silencioso que adoece o corpo e rouba a paz.
A metáfora do barco vazio, precioso ensinamento da sabedoria taoísta, nos convida a enxergar a vida por outra perspectiva. O barco que nos atinge raramente traz a intenção de nos ferir; na maioria das vezes, ele é apenas movido pelas correntes da vida, pelo vento das circunstâncias ou pela própria ausência de controle. Quando compreendemos que o outro ou o evento não carregam um ataque pessoal, desarmamos a necessidade de revanche. A raiva só encontra morada quando pressupomos um inimigo ao leme.
Como ensinou o poeta Rumi: “A arte de esculpir a paz consiste em deixar ir as ilusões que a mente insiste em criar.” Diante dos percalços do cotidiano, a verdadeira mudança de atitude começa na escolha de como responder ao inesperado. Em vez de erguer punhos contra embarcações à deriva, cabe a nós ajustar as próprias velas e guardar a serenidade interior.
Que possamos levar este aprendizado como bússola para os dias futuros: nem todo impacto é um confronto, e nem todo barulho exige uma batalha. Quando o destino colocar um barco vazio em nosso caminho, que saibamos acolher o solavanco não com desespero ou rancor, mas com a sabedoria de quem reconhece a oportunidade de silenciar a mente, respirar fundo e seguir velejando em águas tranquilas.
“Um homem precisa viajar por si, com seus próprios olhos e pés, para entender o que é seu. No mar, aprende-se que não podemos mudar o vento, mas podemos sempre ajustar as velas para manter o rumo.” (Amyr Klink – Renomado navegador e escritor brasileiro)
São Luís, 05 de agosto de 2026.
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José Carlos Castro Sanches.
Químico, professor, consultor, comunicador, escritor, cronista, contista, trovador, poeta e produtor cultural.
