Por José Carlos Castro Sanches
Site: www.falasanches.com
“A educação não transforma o mundo. A educação muda as pessoas. As pessoas transformam o mundo.” (Paulo Freire)
Era três de agosto, o lendário e temido Dia do Retorno. A garotada acorda no piloto automático, arrastando os pés e os olhos semicerrados numa luta corporal contra o despertador. Enquanto isso, do outro lado do corredor, os pais celebram em silêncio — ou nem tão em silêncio assim — o fim do caos doméstico e a reaparição da abençoada paz. Vovôs, vovós, tios e cuidadoras em geral respiram aliviados por devolver o bastão, entregando as pequenas feras de volta ao ecossistema escolar.
Lá fora, a rotina maranhense retoma seu ritmo habitual: o trânsito das ruas e avenidas de São Luís volta a travar com a precisão de um relógio suíço, transformando o trajeto até a escola num exercício de paciência sobre quatro rodas. Nas portas das instituições, os vendedores de pipoca, picolé e bombom sorriem de orelha a orelha; afinal, em tempos de economia murcha, o apetite da meninada é a garantia da renda. No escritório, os donos de escolas privadas já esfregam as mãos aguardando as mensalidades, enquanto várias escolas públicas, empurradas pelo descaso crônico e pela absoluta falta de estrutura básica, engatinham no bê-a-bá com a agilidade de tartarugas na areia.
E então chegamos aos verdadeiros heróis da resistência: os professores e as equipes pedagógicas. Terminada a trégua das férias, eles vestem a armadura para encarar a ingrata missão de não apenas ensinar conteúdos, mas também educar os filhos dos outros — tarefa da qual muitos pais abdicaram. Em plena era da educação moderna, a sala de aula virou uma arena surreal: de um lado, o docente tentando transmitir conhecimento profundo; do outro, uma plateia viciada em vídeos de dez segundos, dispersa por algoritmos e convencida de que uma busca rápida na internet substitui anos de estudo. Confunde-se informação abundante com sabedoria, e o resultado é uma geração que consome tudo, mas questiona muito pouco.
O problema é que uma sociedade sem educação crítica é como um navio sem leme, à mercê do primeiro vento populista ou da ilusão de facilidades imediatas. O conhecimento de verdade não serve apenas para passar na prova ou conseguir um diploma para pendurar na parede; ele é a única ferramenta capaz de libertar mentes, formar cidadãos conscientes e destravar o potencial criativo e produtivo de um povo. Sem estudo, tornamo-nos meros espectadores do progresso dos outros.
Querem uma prova do que a educação é capaz de fazer? Basta olhar para a Coreia do Sul. Na década de 1950, destruída por uma guerra devastadora e sem recursos naturais, a nação era uma das mais pobres do planeta. A virada não veio por milagre ou riqueza mineral, mas por uma decisão radical: investir pesadamente na escola, valorizar o professor e encarar o estudo como prioridade nacional absoluta. Em poucas décadas, o país transformou-se em uma potência tecnológica e cultural global. Se funcionou para um país inteiro, funciona para cada jovem que decide pegar um livro hoje. Estudar não é um favor que se faz aos pais ou aos mestres, mas o investimento mais inteligente e lucrativo que alguém pode fazer em benefício do próprio futuro.
“O principal objetivo da educação é criar pessoas capazes de fazer coisas novas, e não simplesmente repetir o que outras gerações fizeram.” (Jean Piaget)
São Luís, 02 de agosto de 2026.
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José Carlos Castro Sanches
Químico, professor, consultor, comunicador, escritor, cronista, contista, trovador, poeta e produtor cultural.
