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FÁBULA: O ENIGMA POLISSÊMICO

Por José Carlos Castro Sanches

Site: www.falasanches.com

Sob a sombra acolhedora de uma imensa sumaúma milenar, a clareira da floresta transformara-se em uma vibrante sala de aula ao ar livre. Ali estavam reunidos quarenta representantes da fauna de quadrantes distantes, todos com os olhos fixos na lousa improvisada em um tronco. Entre eles, destacava-se uma jovem girafa, que esticava seu longo pescoço por cima de todos os outros bichos para não perder nenhum detalhe, dividindo sua atenção entre as anotações e a tela iluminada de seu smartphone.                                                                                  

No centro de tudo, a sábia Coruja, renomada professora da floresta, batia suas asas para pedir silêncio. Ela começava mais uma de suas célebres lições sobre a versatilidade e a riqueza da Língua Portuguesa. O tema do dia era uma das palavras mais camaleônicas do nosso idioma: a palavra “como”.

A professora coruja ajeitou os óculos no bico e, com uma caligrafia firme, escreveu o primeiro exemplo no tronco. Voltou-se para a turma e explicou, apontando com a ponta da asa exatamente para onde a girafa olhava:

— Na frase: “A girafa esticava o pescoço da maneira como conseguia ler melhor”, o “como” aparece logo após a palavra maneira. Ele funciona aqui como um pronome relativo, equivalendo a “pela qual”. É o elo que une a forma ao seu próprio estilo de escrita.

Nesse instante, um jovem lobo-guará, que mastigava uma fruta silvestre distraído no canto, soltou uma exclamação ao ver sua bateria acabar. A professora aproveitou o momento exato para introduzir as próximas variações morfológicas:

— Como a tecnologia às vezes falha, precisamos treinar a nossa mente! Notem bem: esse primeiro “como” que acabei de usar inicia uma causa, funcionando como uma conjunção subordinativa causal. Enquanto alguns se perdem no mundo digital, eu como meu fruto intelectual na tranquilidade do saber. Atenção para a escrita! Aqui não temos conectivo, mas sim o próprio verbo comer, conjugado na primeira pessoa do presente do indicativo. Uma ação vital para o corpo e para a mente!

Um macaco, impressionado com a velocidade da explicação, comentou baixinho com o vizinho: “Ela fala como um livro aberto!”. A professora coruja, dotada de uma audição aguçada, sorriu e capturou a fala para a lousa:

— Excelente contribuição! Quando dizemos que alguém fala “como” um livro, estamos estabelecendo uma igualdade, uma conjunção subordinativa comparativa. Além disso, a nossa língua é fascinante porque a coruja é não só uma ave atenta, como também uma profunda estudiosa. Vejam que, nesta estrutura correlativa, o termo atua como uma conjunção coordenativa aditiva.

Espantado com tantas transformações, um pequeno sagui interrompeu a aula lá do alto de um galho: “Como?! Uma única palavra faz tudo isso? Como você consegue desatar esse nó, professora?”. A ave sábia bateu as asas em sinal de aprovação:

— Perfeito! O seu primeiro “Como?!” expressou espanto, funcionando como uma interjeição. Já o segundo introduziu uma pergunta sobre o modo, agindo como um advérbio interrogativo de modo. E se eu disser que vocês sentiram como que um arrepio de descoberta, esse termo vira uma partícula de realce, totalmente dispensável para o sentido. No fundo, meus alunos, desvendar o “como” da questão exige paciência. Reparem que agora coloquei o artigo “o” antes da palavra, transformando-a em um substantivo legítimo!

Por fim, a Coruja pousou suavemente sobre a mesa central, olhando bem nos olhos de cada um daqueles quarenta representantes da fauna.

— Meus alunos, eu estou aqui hoje como mentora e guia de vocês nesta vasta floresta do conhecimento. Neste último exemplo, a palavra atua como uma preposição acidental, assumindo o sentido de “na qualidade de” ou “na condição de”. Percebem como uma única palavra é capaz de vestir tantas roupagens diferentes para unir as nossas vozes?

A sala silenciou por completo. Os celulares, antes ferramentas de isolamento e distração, foram guardados nos bolsos, mochilas e fendas dos cascos. Aquela Babel de quarenta bichos, vindos de quadrantes tão distantes e expressando-se originalmente em dialetos tão diversos, compreendeu que a estrutura da língua era a ponte que os unia acima de qualquer barreira geográfica ou tecnológica.

Moral da História:

A tecnologia conecta dispositivos, mas somente o domínio da palavra é capaz de aproximar verdadeiramente as mentes e unificar os povos.

São Luís, 18 de julho de 2026.

Direitos reservados ao autor:

José Carlos Castro Sanches.

Químico, professor, consultor, comunicador, escritor, cronista, contista, trovador, poeta e produtor cultural.

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