1236657.1677ed0.a1d49e5be45046c98447636dfa3d9e34
Oferece a você a oportunidade de leitura e reflexão sobre textos repletos de exemplos, experiências e lições que irão transformar a sua vida.

A MIRAGEM DO AGORA

Por José Carlos Castro Sanches

Site: www.falasanches.com

“A arte de ser sábio é a arte de saber o que ignorar.” (William James)

Há uma beleza quase matemática na fragilidade do foco humano. Quando eu estudava a Teoria do Desempenho Humano e ministrava treinamentos sobre a aplicação prática desses conceitos no cotidiano — especialmente no ambiente dinâmico e implacável da indústria —, percebia claramente os gatilhos que nos desviam da excelência. Dentre uma dezena de variáveis, duas sempre foram as minhas favoritas para correlacionar com a dinâmica das relações humanas neste nosso tempo de tecnologia avançada e busca insana pela informação imediata: a distração e a comunicação falha.

No campo das distrações, o termo correto para definir aquilo que desvia nossa atenção é distratores (estímulos que competem pelo nosso foco, diferentemente de “detratores”, que são aqueles que depreciam ou falam mal de algo). Hoje, o aparelho celular figura como o distrator soberano, uma vitrine infinita que fragmenta nossa presença em mil pedaços.

Paralelamente, a comunicação falha corrói nossos objetivos. Ela envolve diretamente três fatores cruciais: o emissor (quem envia), o receptor (quem recebe) e a mensagem em si. Quando somamos a isso o método utilizado para transmitir, receber e decodificar essa informação, bem como o ruído (qualquer interferência nesse trajeto) e o feedback (a confirmação de que a mensagem foi de fato compreendida), percebemos que o diálogo humano é uma engrenagem delicada. Se uma peça falha, o entendimento desmorona.

Hoje, ao me deparar com um sábio provérbio africano, senti o peso dessa engrenagem: “O caçador que persegue um elefante não para atirar pedras nos pássaros”. A metáfora é cirúrgica. O elefante é o nosso grande objetivo de vida, o projeto profissional que tanto almejamos, ou aquela conversa decisiva que precisamos ter. Os pássaros são as notificações de redes sociais, as fofocas de corredor, os e-mails irrelevantes e a urgência cega de responder a tudo instantaneamente. Ao parar para atirar pedras em cada ave que cruza o caminho, o caçador não apenas perde o elefante de vista, mas esgota suas energias em batalhas inúteis.

No cotidiano, a falta de foco e a comunicação ruidosa cobram um preço muito alto. Pense no profissional que, em vez de redigir um relatório crucial com clareza e objetividade, envia mensagens fragmentadas e ambíguas por aplicativos de mensagens, gerando retrabalho e desentendimentos na equipe. Ou imagine o líder que não consegue ouvir seu liderado de forma ativa porque está dividindo a atenção com a tela do computador. A comunicação eficaz não é sobre o quanto falamos, mas sobre o quão bem nos fazemos entender. Ela é o fio condutor que transforma intenção em ação concreta, tanto na carreira quanto nos afetos.

Dessa Teoria do Desempenho Humano aplicada à vida, extraio lições simples para o nosso dia a dia: primeiro, blindar o foco é um ato de coragem. Significa escolher qual “elefante” merece sua energia hoje e silenciar os “pássaros” digitais. Segundo comunicar-se bem exige presença. Antes de enviar uma mensagem, certifique-se de que o canal é adequado, reduza os ruídos e certifique-se de que o receptor decodificou o que você realmente quis dizer.

Ao final, o sucesso pessoal e profissional reside na nossa capacidade de simplificar o caos. Que possamos aprender a calibrar nossa atenção e nossa voz para o que de fato importa, deixando de lado o ruído do mundo para escutar a melodia daquilo que nos constrói.

“O maior problema na comunicação é a ilusão de que ela foi alcançada.” (George Bernard Shaw)

São Luís, 16 de julho de 2026.

​Direitos reservados ao autor. José Carlos Castro Sanches é químico, professor, consultor, comunicador, escritor, cronista, contista, trovador, poeta e produtor cultural.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *