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O NAUFRÁGIO DOS REIS DO PASSADO (Como a Incompetência Canarinho Virou Banquete para os Vikings)

Por José Carlos Castro Sanches

Site: www.falasanches.com

“A soberba precede a ruína, e a altivez do espírito precede a queda.” (Provérbios 16:18)

Vem, Brasil! Volta para casa. O escrete canarinho não perdeu simplesmente para a Noruega; foi solenemente derrotado pela sua própria e crônica incompetência. O enredo trágico começou a ser desenhado cedo: um pênalti desperdiçado logo no início do confronto mudou completamente o destino do jogo. Restou-nos a dúvida cruel: houve indefinição tática, escolha equivocada do batedor ou apenas o mérito absoluto do goleiro adversário? O arqueiro nórdico, inclusive, operou milagres e chegou a defender uma bola que fatalmente se transformaria em um humilhante gol contra. Enquanto isso, do lado brasileiro, absolutamente nada funcionava.

“No futebol, o pior cego é aquele que só vê a bola.” (Nelson Rodrigues)

Do outro lado, o carrasco não ostentava a pompa dos velhos craques. Um norueguês com feição pacata, cabelos compridos e que parecia completamente alheio ao espetáculo, precisou de apenas duas oportunidades claras — um chute cirúrgico e uma cabeçada certeira — para despachar o Brasil e sepultar o sonho do hexacampeonato. O choro nos gramados foi inevitável, mas as remadas vigorosas da Noruega mostraram-se infinitamente mais fortes e produtivas do que os passes errados e as falhas gritantes da seleção brasileira. Hoje, ficou evidente que o Brasil não aprendeu a nadar em maré alta, águas profundas e ondas gigantescas e avassaladoras, demonstrando habilidade para flutuar apenas em piscinas rasas de pura ilusão.

Contudo, o futebol não parou no tempo. Enquanto o Brasil estagnou na confortável e soberba ideia de ser o único pentacampeão do planeta, o resto do mundo evoluiu de forma assustadora. A Copa do Mundo de 2026 provou que a geopolítica da bola mudou drasticamente. Novos protagonistas emergiram da névoa, como os surpreendentes e táticos times do Marrocos, do Japão, Costa do Marfim, Cabo Verde e dos Estados Unidos, além da própria e disciplinada Noruega. Passou definitivamente o tempo em que existiam favoritos absolutos com previsão de resultados óbvios e vitórias por decreto; agora, as novidades se sucedem em ritmo frenético. O tão sonhado “hexa” torna-se uma miragem cada vez mais distante, quiçá impossível, caso não ocorra uma reestruturação profunda e urgente no futebol brasileiro, que exija profissionalismo real, estratégia moderna, capacitação técnica de ponta e dedicação integral dos atletas e dirigentes, sepultando o amadorismo festivo que nos corrói.

“Não é o mais forte que sobrevive, nem o mais inteligente, mas o que melhor se adapta às mudanças.” (Leon C. Megginson)

Diante do fracasso em solo norte-americano, resta-nos encarar o espelho e digerir as lições dessa dolorosa eliminação. O que realmente aprendemos com essa derrota? Aprendemos que o peso da camisa e o brilho do passado não ganham mais jogos na era da intensidade tática. Falhamos na base, na arrogância de nos julgarmos os “donos da bola” e na incapacidade crônica de renovar nossos métodos. Para fazer diferente, precisamos descentralizar o poder das velhas oligarquias cartoriais, priorizar a inteligência tática desde a infância e entender que o talento bruto, sem disciplina, é facilmente anulado pela organização europeia.

Mas afinal, é possível aprender a perder? Sim, a derrota é a maior ferramenta pedagógica que existe, desde que aceita com humildade e autocrítica. O perigo real não é aprender com o revés, mas sim acostumar-se a perder, transformando o fracasso em rotina e o conformismo em escudo de proteção. Não devemos, e nem podemos nutrir a utopia de vencer sempre, pois o esporte é feito de ciclos. Contudo, a passividade diante da mediocridade é inaceitável para quem ostenta cinco estrelas no peito.

E agora, quem apontaremos como o bode expiatório da vez? Será o técnico? O batedor do pênalti? O destino? Procurar um único culpado é o esporte favorito de uma nação que recusa o diagnóstico de sua própria decadência. O verdadeiro culpado pela derrota não usa chuteiras e nem está na beira do gramado: é o sistema arcaico do futebol brasileiro, vaidoso e míope, que prefere viver das glórias de ontem a construir o profissionalismo de amanhã. Enquanto buscarmos um culpado individual para mascarar uma falha estrutural, continuaremos assistindo à festa dos outros do sofá de casa.

“A derrota tem uma dignidade que a vitória não conhece.” (Jorge Luis Borges)

São Luís, 05 de julho de 2026.

Direitos reservados ao autor:

José Carlos Castro Sanches.

Químico, professor, consultor, comunicador, escritor, cronista, contista, trovador, poeta e produtor cultural.

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