Por José Carlos Castro Sanches
Site: www.falasanches.com
“A linguagem é a casa do ser.” (Martin Heidegger)
Diariamente das 13h às 14h, o rádio ganha vida com o programa “Conexão Nós”, na Rádio Esperança FM (100,9 MHz), em São Luís. Sob o comando do experiente radialista André Martins, a atração é um ponto de encontro para quem aprecia jornalismo, política, economia e as atualidades da nossa terrinha. O programa se destaca ao dissecar os bastidores políticos do Maranhão e promover entrevistas com lideranças locais, resgatando a verve de quem já marcou época no comando do “Conexão 560”, na Rádio Educadora AM.
“A linguagem é a roupa do pensamento.” (Samuel Johnson)
Minha esposa e eu tornamos -nos ouvintes fiéis. Mais do que informar, o programa diverte. O grande diferencial é a habilidade com que André Martins tempera a locução com o autêntico “maranhês”, especialmente com os trejeitos da Baixada Ocidental. É um banquete para os ouvidos de quem valoriza nossa identidade. O termo que batiza esta crônica, “Quiproquó”, é um dos pilares desse nosso jeito de falar. Afinal, quem nunca se meteu em um mal-entendido ou uma confusão daquelas? A palavra deriva do latim quid pro quo (“uma coisa pela outra”). Entre os séculos 17 e 18, o termo ganhou fama nas boticas; os farmacêuticos usavam manuais chamados “Quid pro quo” para substituir remédios em falta. Se o boticário se confundisse, o desastre estava feito. Hoje, o quiproquó virou sinônimo de bagunça, daquela discussão que ninguém sabe como começou. Como disse um desconhecido: “O vocabulário de um povo é o espelho da sua alma.”
“As palavras são os nossos símbolos; elas traduzem a nossa vida e o nosso mundo.” (Monteiro Lobato)
O apresentador André Martins, com sua origem no jornalismo 360, faz da oralidade um ato de resistência. Na nossa rica Baixada Maranhense, o “Baixadês” — vertente vigorosa do maranhês — une o português arcaico a gírias que criam uma proximidade quase familiar. É uma delícia ouvir termos como assuntar (prestar atenção), aviar (apressar-se), andaço (aquela gripe que pega todo mundo), adonde (onde), amuar (ficar emburrado), enticar (implicar), esbandalhar (quebrar) e o clássico jirau (estrutura de madeira). Essa riqueza se estende com expressões que dominam o rádio: o carinhoso “piqueno”, o inconfundível “mermã”, o “sio”, que pontua frases como um selo de veracidade, e a nossa onipresente interjeição “égua”, que serve para tudo: espanto, alegria ou pura indignação. E, claro, a nossa máxima de concordância absoluta: “Eu tô é tu!”.
“O estilo é o homem.” (Georges-Louis Leclerc de Buffon)
A Baixada, especialmente no eixo Viana, Pinheiro e Bequimão, é um caldeirão linguístico. É um lugar onde a pessoa “acesume” (fica agitada) com a novidade, evita a “arrilia” (aperreio) e, quando descobre que algo é bom, classifica como “massa grossa”. Se a coisa for longe, é lá na “baixa da égua”, mas se estiver ali perto, é “benhí”. E, se alguém duvida de algo, logo solta um “Hen hein!”. Além do vocabulário, o modo de falar possui marcas fonéticas como a ditongação (falar “arroiz” ou “rapáiz”) e o uso do plural em verbos de movimento, como o clássico “ir a pés”.
“A literatura é a forma mais simples de dizer as coisas mais complexas.” (Clarice Lispector)
Ao final do dia, percebemos que o rádio não serve apenas para dar notícias. Ele serve para nos conectar com nossas raízes, para rir dos nossos próprios quiproquós e para celebrar a beleza de falar como a gente fala. É, como diria o bom maranhense, esse quiproquó danado é bom demais da conta!
“A escrita é o modo como a gente deixa a nossa marca no mundo.” (José Carlos Castro Sanches)
Rosário, 16 de junho de 2026.
Direitos reservados ao autor:
José Carlos Castro Sanches
Químico, professor, consultor, comunicador, escritor, cronista, contista, trovador, poeta e promotor cultural.
