Por José Carlos Castro Sanches
Site: www.falasanches.com
“A fé é a convicção do que se não vê, e a esperança do que se espera.” (Santo Agostinho)
Algumas datas insistem em retornar anualmente, como um convidado inconveniente que esquece de ir embora. São eventos carregados de significados escolares, familiares ou comunitários: o 7 de setembro, a Páscoa, o Natal, o Carnaval, o São João e por aí vai. É uma lista interminável de feriados e celebrações que obrigam o cidadão comum a entrar no compasso da coletividade. Todavia, confesso – sem querer ser candidato à fogueira, enforcamento ou qualquer outra gentileza medieval em praça pública – que o Corpus Christi sempre passou despercebido por este humilde escrevinhador. Talvez por pura ignorância sobre o fato gerador, a data era apenas mais um dia no calendário, até que, há dois anos, a Ilha de Upaon-Açu resolveu transformar o evento em um colosso logístico, atraindo multidões e aguçando minha curiosidade sobre o significado da celebração.
“O homem é um animal religioso, mas é também um animal político.” (Aristóteles)
Para os curiosos, o Corpus Christi — que significa “Corpo de Cristo” — surgiu no século XIII, quando a freira Juliana de Cornillon teria tido visões pedindo uma festa dedicada à Eucaristia. A data tornou-se oficial em 1264, sendo uma das celebrações mais importantes da Igreja Católica para professar a fé na presença real de Jesus Cristo no pão e no vinho. Curiosamente, a tradição dos tapetes de serragem, tão comum no Brasil, é uma adaptação genuinamente brasileira, transformando o asfalto em um mosaico de devoção que, se não salva almas, pelo menos garante um belo ângulo para as fotos de rede social.
“O poder corrompe, e o poder absoluto corrompe absolutamente.” (Lord Acton)
Enquanto tentava digerir a mística da fé, a realidade da política resolveu me atropelar na rodovia, a caminho do plantão noturno na casa dos meus pais, após quatro horas de estrada entre São Luís e Rosário. Eis que surge o ilustre candidato a governador, sobrinho do atual, promovendo sua campanha no meio do nada. Como o poder, em sua soberba, não conhece limites nem planos de contingência, a multidão ocupou as duas vias, bloqueando o fluxo de veículos. Ninguém passava. Talvez tenha sido uma estratégia genial de marketing: transformar o cronista tolo – que aqui vos fala – em um refém do trânsito, na esperança de que, ao ser notado, o fato ganhasse alguma notoriedade. O resultado? Um engarrafamento memorável e um atraso digno de nota para o plantão.
“A política é a arte do possível; a religião é a arte do transcendente.” (Otto von Bismarck)
No fim das contas, a conexão entre a procissão e o comício é mais profunda do que o asfalto compartilhado. Ambas as esferas, a religiosa e a política, movem multidões e buscam, cada uma à sua maneira, um “além”. Enquanto a religião nos convida a elevar o olhar para o divino e a exercer a caridade, a política deveria ser o instrumento prático dessa mesma ética na terra. Que o mundo, um dia, aprenda que nem a fé deve ser usada como palanque, nem a política deveria ser o obstáculo para quem precisa chegar ao seu destino. Que a justiça, a ética e o bom senso encontrem finalmente um caminho livre de engarrafamentos, para que possamos transitar, juntos, em um mundo mais humano e menos atolado.
“Não há lugar para a verdade onde o poder dita a regra.” (George Orwell)
Rosário, 29 de maio de 2026.
Direitos reservados ao autor:
José Carlos Castro Sanches.
Químico, professor, consultor, comunicador, escritor, cronista, contista, trovador, poeta e promotor cultural.
