Por José Carlos Castro Sanches
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“A poesia é uma alquimia que transforma o chumbo da vida cotidiana no ouro da consciência.” (Octavio Paz)
Eu queria entender a raiz do meu fascínio pelos pássaros. Ao vê-los em qualquer ambiente — em retratos, livres nos céus ou confinados em gaiolas — sinto um chamado ancestral. Ao ouvir o seu canto, seja ele próximo ou longínquo, um pio tímido, um som estridente ou a melodia harmoniosa que reverbera na alma, experimento um bálsamo. É um efeito relaxante como poucos, comparável apenas ao movimento constante e ao ruído das águas que correm em córregos e rios, ao balanço das marés ou à imensidão ritmada do mar, onde barcos dançam sob o olhar atento do horizonte.
Como dizia Manoel de Barros: “Tudo o que não invento é falso. Há que se criar o que não existe, para que o que existe se complete.” Talvez seja essa a minha busca. O que se passou na minha infância para desencadear tamanha atração? Suspeito dos pássaros que criávamos, cujos cantos eram, na verdade, elegias à liberdade perdida. Suspeito dos banhos fugidios, escondidos do olhar zeloso de meus pais, nas águas do Rio Itapecuru, em minha cidade natal, Rosário (MA). Como escreveu Clarice Lispector: “Quem caminha sozinho pode até chegar mais rápido, mas aquele que vai acompanhado pelos pássaros, chega mais longe.”
O que me impulsionou a escrever estas linhas foi um comentário do amigo escritor e promotor cultural Mhario Lincoln, proferido após a sua posse como Membro Correspondente da Academia Maranhense de Ciências, Letras e Artes Militares (AMCLAM). A cerimônia ocorreu no Auditório do Comando Geral da PMMA, no Calhau, em São Luís — a nossa outrora “Atenas Brasileira”. Ele indagava como um químico poderia escrever com tamanha sensibilidade. Respondi-lhe: suspeito que o poeta veio antes do químico. Ele foi forjado no barro das cerâmicas de Rosário. Enquanto o oleiro moldava o pote, o jarro, o filtro, eu observava e criava imagens que, mais tarde, se transformariam na fórmula mágica da escrita — a alquimia necessária para libertar o canto dos pássaros e o movimento das ondas, memórias guardadas no meu interior sensível de cronista.
O alquimista que sonha, um dia, ser estrela, antes precisa apreciar as flores vermelhas e amarelas. Precisa sentir a batida harmoniosa do coração que bombeia o sangue da vida, nutrir-se da sabedoria da coruja e cultivar o girassol para, enfim, abraçar a lua. É preciso agradecer a Deus pelas maravilhosas bênçãos, sorrir, chorar, cantar e jogar beijos ao vento. Como bem definiu Carlos Drummond de Andrade: “A poesia é incomunicável. Fique com ela, mas não tente explicar, porque o que se explica perde o encanto.” Assim, alimento a inspiração e abraço a poesia noite e dia. Tudo é magia!
“A arte é o voo lírico do espírito que, mesmo aprisionado no corpo, teima em alcançar o infinito através das palavras.” (Fernando Pessoa)
São Luís, 27 de maio de 2026.
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José Carlos Castro Sanches.
Químico, professor, consultor, comunicador, escritor, cronista, contista, trovador, poeta e produtor cultural.
