Por José Carlos Castro Sanches
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Se o programa de manutenção de vias fosse tão bem estruturado como o de instalação de sinalização eletrônica de trânsito, tudo seria diferente.
As rodovias, avenidas e ruas de grande parte dos municípios maranhenses padecem do mesmo mal: buracos que engolem rodas, sinalização horizontal apagada pelo tempo, excesso de quebra-molas que castigam a suspensão e uma manutenção de péssima qualidade que se repete a cada inverno. Em contraste, cresce sobre o asfalto uma floresta de luzes, painéis e câmeras.
As sinalizações eletrônicas de trânsito vestem nomes diferentes conforme a função que exercem. O Painel de Mensagem Variável, o PMV de LED, pisca sobre as vias com recados urgentes: “Devagar, obras adiante”, “Acidente no km 15”, ou simplesmente o tempo de viagem até o próximo gargalo. Também atende por Painel Eletrônico, Painel de Mensagem Dinâmica. É a voz moderna da estrada.
Logo adiante, o semáforo cumpre seu ritual verde-amarelo-vermelho. Quando ganha números regressivos, vira semáforo com temporizador e nos dá a ilusão de controle sobre a espera. Já o radar e a lombada eletrônica medem, vigiam e punem. A lombada eletrônica é mais pedagógica: mostra a velocidade num painel e só multa quem insiste no erro. O radar fixo apenas fiscaliza, calado. A barreira eletrônica faz os dois papéis – fiscaliza e expõe.
Há ainda a sinalização semafórica inteligente, que respira junto com o trânsito. Sensores e câmeras ajustam o tempo de cada cor conforme o fluxo, tentando domar o caos. Nas entradas da cidade, os pórticos de fiscalização se erguem como arcos do futuro, com câmeras que leem placas, velocidade, rodízio e licenciamento. E nos bairros, o totem de velocidade exibe um espelho digital: “SUA VELOCIDADE”. Educativo, nem sempre carrasco.
No Código de Trânsito Brasileiro, a lei os batiza de “sinalização semafórica” e “dispositivos auxiliares” quando fala desses equipamentos. Em São Luís, o vocabulário das ruas já decorou outros: PMV nas avenidas largas, lombada eletrônica nos bairros residenciais e semáforo inteligente no centro antigo.
Mas foi um caso particular, na Avenida Deputado Luís Eduardo Magalhães, que acendeu a luz desta crônica. No retorno de acesso para a Estrada da Pimenta instalaram uma sequência de balizadores verticais que devoram metade da pista. Viraram armadilhas no caminho, gerando risco de batida contra eles e entre veículos que se acotovelam nas imediações. Salta aos olhos a falta de rigor técnico na elaboração de alguns projetos de tráfego que estão sendo implantados em São Luís. Sem falar das evidentes falhas nas drenagens pluviais que, durante as chuvas, transformam ruas em rios – mas isso é tema para outra crônica.
Voltando aos piquetes inadequados no meio da via, para justificar o erro grave de projeto, a SMTT mantém um guarda com uma viatura durante o dia e por vezes à noite. Ali, de caderneta e caneta em punho, ele anota e multa todos os veículos que ousam passar sobre a sinalização horizontal da pista. Perdi a conta de quantas vezes aqueles piquetes já foram quebrados por carros que trafegam pela via. Cada vez que passo pelo local tenho a mesma sensação: desperdício de mão de obra e de viaturas que poderiam ser úteis em outras áreas, subutilizadas para encobrir falhas construtivas. É perceptível para qualquer leigo as barbeiragens técnicas que se multiplicam em diversos projetos de tráfego na capital maranhense.
Quero esclarecer que não sou contrário às melhorias. E, a bem da verdade, nas últimas cinco décadas nenhum outro administrador municipal fez tanto quanto o recente prefeito. Mas é necessário rever as especificações técnicas dos projetos de melhoria de tráfego e urbanismo para evitar erros e aplicação indevida de recursos públicos. Como lembrava o engenheiro Saturnino de Brito, pioneiro do saneamento no Brasil, “a obra pública exige mais que intenção: exige ciência”. Sem cálculo, sem estudo de tráfego, sem avaliação de risco, o que era para organizar vira obstáculo.
A aplicação de normas técnicas não é burocracia – é proteção. Cada balizador mal posicionado custa dinheiro em manutenção, em viatura parada, em hora-homem desperdiçada, em acidentes que poderiam não acontecer. Oscar Niemeyer já dizia que “a arquitetura deve falar de seu tempo e lugar, porém ansiar pela atemporalidade”. O mesmo vale para o desenho das vias: precisa dialogar com a cidade real, com o motorista real, com a chuva real que cai em São Luís. Quando o projeto ignora a realidade, a conta chega. E ela é paga por todos nós, em tempo perdido, em dano material e em vidas.
A reflexão que fica para a gestão pública é simples e dura: tecnologia sem técnica é apenas gasto iluminado. O arquiteto e urbanista Jaime Lerner, que transformou Curitiba com soluções simples e eficazes, ensinava que “a cidade não é um problema, é uma solução”. Mas só será solução se cada PMV, cada semáforo inteligente, cada piquete for precedido de estudo, de simulação, de escuta e de responsabilidade. Governar é escolher onde pôr a luz. E, sobretudo, onde não pôr um obstáculo.
São Luís, 29 de abril de 2026.
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José Carlos Castro Sanches.
Químico, professor, consultor, comunicador, escritor, cronista, contista, trovador, poeta e promotor cultural.
