Por José Carlos Castro Sanches
Site: www.falasanches.com

Como afirma Guimarães Rosa: “Viver é muito perigoso; porque aprender a viver é que é viver mesmo”. Sob essa ótica de descoberta constante, descreverei a experiência de mais um dia de pleno aprendizado:
Era Sábado de Aleluia, dia nublado, acordei tarde, recebi o presente de aniversário de uma filha pelos correios – um tablet – precioso instrumento para a arte de escrever diariamente que tanto amo. Sai para almoçar na casa da amada filha juntamente com a minha querida esposa. Saciados conversamos, fizemos pose para as fotos, ajustamos os dispositivos para uso no tablet, brinquei com os netos, li um capítulo de ‘A Vida por Escrito’ de Ruy Castro, tiramos a sesta e tomamos café com bolo de tapioca, macaxeira e milho.
Mario Quintana certa vez escreveu: “O passado não reconhece o seu lugar: está sempre presente”. Com esse sentimento de continuidade e dever, meu bem e eu encerramos a diária na casa da filha e genro e seguimos para o nosso ninho. Na metade do caminho, decidimos que iríamos ao velório da mãe de uma amiga.
Às 23h chegamos à PAX da Rua Grande – Canto da Fabril em São Luís do Maranhão. A filha e o genro da falecida estavam de saída para a residência – iam descansar um pouco – depois de quatro dias de dor e sofrimento.
Para Clarice Lispector, “até o que dá errado cria um caminho novo”. No cenário da despedida, surge o inusitado: Ficamos na companhia de uma filha, um filho, um neto, uma nora, uma barata, a ajudante da limpeza que varria o salão onde a saudosa era velada. A barata saiu do forro branco e começou a passear rodeando a parede, enquanto o filho da falecida pegou uma sandália da sua esposa e seguia a barata na expectativa dela descer e receber uma chinelada, mas a barata só queria dar o último adeus à finada, escondeu-se novamente no seu casulo e desapareceu.
Fernando Pessoa nos ensina que “o valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem”. A presença da barata naquele velório é um enigma vivo, um símbolo da resistência e da fragilidade que nos rodeia, lembrando-nos que mesmo nos momentos de luto profundo, a vida insiste em se manifestar através de pequenos sinais e imagens que surgem do nada para testar nossa percepção sobre o que é essencial.
Segundo o pensamento de Sêneca, “toda a vida é apenas um caminho para a morte”, e por isso cada segundo deve ser vivido como se fosse o último. A trajetória efêmera do inseto na parede branca do necrotério é uma metáfora da nossa própria passagem: um movimento breve, observado por poucos, muitas vezes incompreendido, mas carregado de uma intenção silenciosa que nos convoca a refletir sobre a importância de abraçar cada instante com plenitude e presença.
Santo Agostinho afirmava que “a morte não é nada, apenas passamos para o outro lado do caminho”. Que o recolhimento daquela barata traga uma mensagem de libertação para a alma da falecida; que ela possa, enfim, despir-se das amarras terrenas e voar para a paz de espírito, longe das perseguições e do peso da existência material, encontrando o repouso absoluto onde a dor não mais alcança.
A crônica da vida se escreve no detalhe: “A morte não é o fim, mas o momento em que a vida se torna uma memória escrita no coração dos que ficam”. Que os familiares e amigos da saudosa encontrem consolo na compreensão de que os enigmas e símbolos que nos cercam são, na verdade, convites para honrarmos a memória de quem partiu através da celebração intensa da vida que ainda pulsa em nós.

“Não é que temos pouco tempo, é que perdemos muito dele.” (Sêneca)
São Luís, 05 de abril de 2026.
José Carlos Castro Sanches.
É Consultor de SSMA da Business Partners Serviços Empresariais – BPSE. Químico, professor, comunicador, escritor, cronista, contista, trovador e poeta maranhense. Membro Efetivo do PEN Clube do Brasil, da Academia Luminense de Letras, da Academia Maranhense de Trovas, da Academia Literária do Maranhão, da Academia Rosariense de Letras Artes e Ciências, da Academia Maranhense de Ciências e Belas Artes, da Academia de Letras, Artes e Cultura de Coroatá, da Sociedade de Cultura Latina do Estado do Maranhão, da Federação das Academias de Letras do Maranhão, da União Brasileira de Escritores, da Associação Maranhense de Escritores Independentes. Membro correspondente da Academia Arariense de Letras, Artes e Ciências, da Academia Vianense de Letras e da Academia Icatuense de Letras, Ciências e Artes. Tem a literatura como hobby. Para Sanches, escrever é um ato de amor e liberdade.
Autor dos livros: Tríade Sancheana – Colheita Peregrina, Tenho Pressa, A Jangada Passou; Trilogia da Vida: No Fluir das Horas, Gotas de Esperança e A Vida é um Sopro!; Pérolas da Jujuba com o Vovô, Pétalas ao Vento; Série Três Viagens: Das coisas que vivi na serra gaúcha, Me Leva na mala, Divagando na Fantasia em Orlando; O Voo da Fantasia e Momentos do Cotidiano. Livros em parceria: Borboletas & Colibris, TROVOAR – Trovas para Inspirar e Sonhar e ECOS – da Academia Maranhense de Trovas. Participa de diversas antologias brasileiras.
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